GUERRA E PAZ - A milenar lenda de um jogo instigante
PUBLICAÇÃO
domingo, 13 de janeiro de 2008
Marcos Losnak<br>Especial para a FOLHA 
Todo mundo conhece o jogo. Um tabuleiro de xadrez por onde caminham reis, damas, peões, bispos, cavalos e torres. O que nem todo mundo sabe é que existe uma lenda sobre a origem de um dos jogos mais instigantes que a humanidade produziu.
Sua origem remete a mais 3 mil anos atrás, em algum lugar do continente asiático. Essa sedutora e inteligente lenda é contada para o público infanto-juvenil em A História do Xadrez, obra do ilustrador argentino Horacio Cardo publicada pela Editora Salamandra.
Tudo começa muito tempo atrás numa ilha. No local viviam duas nações em guerra, a nação branca e a nação preta. O conflito se arrastava por gerações sem trégua. A violência e as atrocidades das batalhas angustiavam os reis e a população das duas nações.
Quando finalmente a paz foi conquistada, os reis decidiram que seria importante deixar um registro dos sangrentos combates para que a guerra nunca fosse esquecida. Para que as futuras gerações, conhecendo o passado, nunca mais o repetissem.
Numa espécie de celebração da paz, os governantes das duas nações uniram-se e contrataram poetas e escritores para criar um relato original e inesquecível. Uma história em que a guerra seria lembrada ao longo dos tempos.
Anos se passaram e nenhum poeta nenhum escritor conseguiu criar uma grande história que relatasse os acontecimentos de maneira completa e intensa. Os reis estavam quase desistindo quando apareceu um homem chamado Sissa dizendo que tinha uma obra capaz de satisfazer os desejos e objetivos dos reis.
Apresentou uma caixa de madeira coberta com quadrados brancos e pretos. Sobre o tabuleiro, colocou várias peças que pareciam pessoas e animais estilizados. A reação dos reis e de toda a população foi de descrédito. Não conseguiam entender como uma complexa guerra poderia ser representada em um pequeno tabuleiro.
Sissa então tratou de explicar sua invenção. Disse que o tabuleiro era uma réplica da ilha dividida por paralelos e meridianos e os acontecimentos da guerra seriam narrados na forma de um jogo. De um lado a nação branca, de outro a preta. Os movimentos das peças reviveriam a batalha cada vez que um novo jogo fosse disputado. Mostrou as peças o rei, a dama (ou rainha), o bispo, a torre, o cavalo e o peão e suas funções específicas correspondentes às suas posições sociais e ocupações na guerra.
Ao final da lenda, quando Sissa terminou seu relato, os reis encantados não conseguiram encontrar nenhuma falha em sua invenção. Ela representava perfeitamente a memória da guerra. Felizes, ofereceram ao inventor uma recompensa. Sissa pediu apenas uma moeda de ouro para a primeira casa do tabuleiro, duas para a segunda casa, quatro para a terceira e assim por diante até a casa final, em progressão geométrica. Os nobres consideraram o pedido irrisório, apenas algumas moedas de ouro, mas quando os funcionários começaram a fazer as contas, perceberam que não conseguiriam completar todas as casas. Nem juntando o tesouro das duas nações, seria possível completar matematicamente o pedido.
Com belas ilustrações, A História do Xadrez é um livro completo. Oferece, ao mesmo tempo, a lenda literária do xadrez e como o jogo está estruturado. Apresenta a imagem simbólica de cada uma das peças, seus movimentos no tabuleiro, suas funções estratégicas no jogo. O papel subjetivo é colocado lado a lado com a função objetiva. O fantástico e a lógica caminhando de mãos dadas.
SERVIÇO
- A História do Xadrez, texto e ilustrações de Horacio Cardo, Editora Salamandra, tradução de Pedro Bandeira, 48 páginas, capa dura, R$ 34,00


