Guardião do samba
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quinta-feira, 31 de janeiro de 2008
Flora Guedes<br> Equipe da Folha 
Conhecendo a história de Maé da Cuíca, 80 anos, fica a sensação de que o destino conspirou para que ele se tornasse um grande nome do samba. Engana-se quem acha que sua fama de exímio sambista se limita a Curitiba, ao Paraná. Ela se estende até o Rio de Janeiro, onde Maé tem uma estreita amizade com o mestre de bateria da Escola de Samba Salgueiro. Ele conta que se encontrava com ''Louro'' para discutir as mudanças que vêm ocorrendo na batida do samba, deixando para trás o batuque clássico, original, puro.
Quando veio com sua família, de Jacareí, Ismael Cordeiro tinha cinco anos. O pai, ferroviário, precisou pedir transferência para tratar o filho, que sofria de uma doença no fígado, em Curitiba. ''Cheguei aqui exatamente na Revolução de 1932. Estou velho pra caramba'', brinca ele, aos 80 anos. A família de ponta-grossenses se instalou na Vila Tassi, um bairro humilde, onde nasceu o samba de Curitiba. O pai, evangélico, não fazia gosto em ver o filho se interessar pela batucada 'dos criolos do lugar', como Maé mesmo lembra. Não foi suficiente para evitar que aflorasse no rapaz de 16 anos a paixão pelo samba.
Logo já fazia parte da roda samba e entre todos os instrumentos escolheu o tamborim. Foi um dos fundadores da primeira escola de samba da cidade, o Colorado, em 1946, que foi extinta há cerca de seis anos. Assitiu ao carnaval da cidade ganhar corpo e, por anos seguidos, desfilar na Marechal Deodoro. Maé e seus companheiros de bateria fizeram história com o samba afinado e de raiz que levavam para a avenida. ''Fui assistir o carnaval, nos últimos dois anos, e meu vontade de chorar. Quando começamos os desfiles aqui, em 1948, mesmo com poucas escolas era melhor do que está agora. Para mim é muito doído ver tudo isso acontecer ao carnaval de Curitiba'', lamentou ele, em entrevista a FOLHA, no seu apartamento, no Centro da cidade.
Folha de Londrina: O que pode nos contar do início das escolas de samba em Curitiba?
Maé da Cuíca: Tudo começou na Vila Tassi, um bairro humilde, que ficava na aréa após a Rodoferroviária, onde tem o Moinho de Trigo Anaconda. Lembro que quando tinha 16 anos comecei a frequentar rodas de samba feitas por crioulos que tocavam pandeiro, violão, pandeiro, tamborim. Meu pai era evangélico, não gostava que eu participasse. Não tinha para onde ir, então eu ia ver aquela batucada. Fui gostando e quando me dei conta já estava incluído na roda de samba. Naquela época, meu negócio era o tamborim. Fundamos, em 1946, o Colorado, a primeira escola de samba da cidade.
Folha: O senhor morava na Vila Tassi?
Maé da Cuíca: Nasci em Ponta Grossa e meu pai foi transferido para Jacareí, quando eu ainda era pequeno. Lá, tive um problema no fígado e meu pai precisou pedir novamente transferência para que eu me tratasse, em Curitiba, eu já tinha cinco anos. Cheguei aqui exatamente na Revolução de 1932. Agora estou com 80 anos, estou velho pra caramba.
Folha: Como o Colorado começou a desfilar no Centro da cidade?
Maé da Cuíca: Depois que me juntei àquele grupinho de sambistas, reunimos todo mundo num grupo de carnaval para sair em Curitiba. Era o ano de 1945, imagine aquela turma, maioria crioula, querendo desfilar pela cidade com um batuque. Para chegar na Rua XV, tinha que passar pela Rua Barão, onde tinha uma delegacia. Então o barulho diminuía para passar na frente. No ano seguinte resolvemos registrar a escola de samba como uma instituição carnavalesca. Em 1948 surgiu a Embaixadores da Alegria, a Dom Pedro II, o Não Agite, Asas da Alegria, Deu Zebra no Batuque, Sapolândia, Os Calanga e o carnaval de Curitiba foi tomando corpo.
Folha: Quando o carnaval passou a acontecer na Marechal Deodoro?
Maé da Cuíca: O carnaval começou na verdade a desfilar na Rua das Flores, quando descíamos até a praça Osório e voltava, tinha aquela guerra de bisnaga nos olhos, confete. Depois é que foi para a Marechal, um carnaval mais profissional, mais responsável e com regulamento. As escolas se apresentavam estruturadas com enredos, carros alegóricos, alas, bateria e um número mínimo de 350 participantes, para aquelas oito maiores do Grupo A. Os desfiles aconteciam durante quatro dias e começavam às 20h, com as escolas pequenas, depois vinham as maiores. Era um carnaval disputado, você não sabia quem ia ganhar. Tinha até um samba que fiz, quando o colorado ganhou, que dizia assim: ''Rua das flores lindas mulheres de sorriso divinal/ Marechal Deodoro passarela do samba em noites de carnaval''. Pensava que o Beto Richa, um cara jovem, iria mudar os erros que o Taniguchi (Cássio) cometeu com o carnaval, retirando da Marechal. Mas me parece que a situação ficou ainda pior com ele.
Folha: O senhor acha que a mudança da Marechal para a Cândido de Abreu colaborou para que o carnaval minguasse na cidade?
Maé da Cuíca: De oito anos pra cá, desmanchou tudo. Tudo aquilo que eu fiz e outros companheiros do carnaval está se acabando. Aliás, quase todos eles faleceram. Graças a Deus ainda estou eu aqui para contar essa história. Conversei com o Taniguchi, na época, e ele me disse que tirou o carnaval da Marechal porque o comércio local reclamava que as vidraças eram quabradas e acontecia uma anarquia lá. Ele aceitou os argumentos do comércio, mas não procurou saber o nosso lado, porque desde 1960 a gente fazia carnaval lá. Mas ele que mandava e tirou de lá. O carnaval é uma festa do povão e para o povão, era o maior evento da cidade. Quem mantém o comércio é povão e quando chega na hora da população se divertir, ele toca todo mundo da Marechal.
Folha: O senhor acha que o carnaval de Curitiba então tinha que acabar?
Maé da Cuíca: Não, deve continuar, mesmo que seja feio ou como for. As pessoas precisam parar de comparar o nosso carnaval com o do Rio de Janeiro. Éramos presidente de escolas de samba e fazíamos tudo no sacrifício. Não se dormia, não se comia bem, era aquela correria. Dinheiro era pouco, as condições eram precárias, mas a gente lutava porque gostava. Enquanto tivesse meia dúzia de teimosos, lutando pelo carnaval, ele estava ali. Mas está tudo sumindo. Fui assistir o carnaval, nos últimos dois anos, e meu vontade de chorar. Para mim é muito doído ver tudo isso acontecer ao carnaval.
Folha: Dedicou quase toda sua vida ao carnaval?
Maé da Cuíca: Trabalhei trinta anos na estrada de ferro, sou funcionário público ferroviário aposentado. Não quer dizer que vivi de carnaval, o carnaval foi minha vida. Até respondi a um inquérito administrativo por causa de carnaval. Fundei o primeiro conjunto samba da cidade, em 1964, o Partido Alto Colorado, ficamos juntos por 40 anos. Hoje estou com 80 anos tocando minha cuíca, viajando, trabalhando. Também estou brigando contra uma bronquite que peguei (risos) pelo cigarro que os outros fumam.
Folha: E sua história junto ao Colorado?
Folha: Sempre fui ligado ao Colorado. Ela nasceu junto comigo. Comecei na bateria e três anos depois assumi a presidência. Minha bateria era quase sempre as mesmas pessoas, cerca de 60, então tudo aquilo que eu queria inventar na avenida, uma passagem de samba diferente, ou alguma coisa em matéria breque, eles sabiam, era um simples um sinal. Quando eu apitava deixava por conta deles - começa a imitar o som da bateria com a boca - Dem-dem disgudun, dem-dem até que tam-tam, dava o tempo que tinha que ficar aquela fantasia do samba ali. A bateria fazia o que eu queria, porque eu entendia todo mundo e eles me entendiam. Durante 35 anos tiramos nota 10.
Folha: Existe uma diferença do samba de Curitiba para o samba do Rio de Janeiro?
Maé da Cuíca: O nosso é diferente porque nunca trouxemos gente de fora pra vir mandar aqui. Teve uma época que os mestres de bateria das outras escolas eram tudo cria do Colorado, como Rogério, o Pelé. Todo mundo buscava preservar nosso estilo. Agora querem imitar as batidas de fora. (Pausa para pegar o tamborim). Eu critiquei, lá no Rio, a batida que estão fazendo nas escolas. Aquilo parece o barulho das catracas do metrô na hora de pico. Catá, catá, catá. É a mesma batida. Samba é isso aqui (ele mostra como se faz no tamborim). O que nunca mudei no Colorado. Agora bata esse som de catraca e cante um samba para ver se dar certo. Vai precisar da caixa para afinar a coisa. Não temos que imitar o esquema de bateria de ninguém. Falei para o Louro, o mestre de bateria da Salgueiro, à respeito dessa batida, critiquei mesmo. Ele me respondeu, 'olha Maé, eu sei que estou errado, mas eu não vou mudar, porque vou ficar sozinho e aí eu vou dançar'.
Folha: O senhor mantinha relações com os sambistas cariocas?
Maé da Cuíca: Numa ocasião estive no Salgueiro, numa reunião da diretoria, trocando idéia para ver o que a gente podia fazer, até mesmo para aplicar alguma coisa aqui. Veja bem, só o que eles gastam numa fantasia de baiana lá paga todas as fantasias de uma escola inteira aqui. Perguntaram quantas pessoas costumavam desfilar nas escolas. Respondi que 400, 500, 600. O vice-presidente da Salgueiro disse para mim que só do Paraná desfilavam na escola mais de 400 pessoas. Os caras saíam daqui para desfilar no Rio.
Folha: Na época do carnaval na Marechal, vieram ser júri do desfile das escolas figuras como Ismael Silva, Cartola, Leci Brandão...
Maé da Cuíca: Lembro de Grande Otelo. Ele chegou a chorar com o samba-enredo do Colorado. Quando terminou o desfile, chamou o nosso puxador, o Susto, para cantar novamente para ele o samba-enredo feito por Silas de Oliveira, do Rio de Janeiro. Também lembro da Leci Brandão e tantos outros que entendiam de samba.
Folha: Como aconteceu o convite para esses sambistas cariocas?
Maé da Cuíca: Aconteceu que teve um problema num desfile porque trouxeram um professor de coreografia de Ponta Grossa para integrar a comissão julgadora. Ele recebeu uma lista com a sequência das escolas, mas a Embaixadores não desfilou e esse juiz de coreografia, que por sinal era estrangeiro, não foi avisado. E foi uma confusão danada. Sugeri fazer novamente o julgamento da coreografia no dia seguinte. Eu sabia que o Colorado iria ganhar, não importasse a pontuação. Só que aí o Cadilhe se reuniu com o Mazzinha e o Afunfa que bateram uma petição pedindo a anulação do desfile. Eles viram que eu ia ganhar e quem dançou fui eu. A imprensa veio para cima de mim e eu meti o pau. Enquanto colocarem para julgar o carnaval embaixatriz da Austrália, professor de piano e maestro da orquestra sinfônica, o Colorado não vai ganhar carnaval porque eu levava samba para avenida, não desfilava fantasias. Fiquei queimado na parada. Mas foi aí que foi realizado um estatuto, se criou uma associação e no ano seguinte estava aqui a comissão de júri do Rio.
Folha: O senhor pensa em voltar a desfilar no carnaval de Curitiba?
Maé da Cuíca: Voltaria, inclusive, com o Colorado, mas só se o desfile voltasse para a Marechal Deodoro.


