Grafite nos esgotos
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
Rafael Urban<br> Equipe da Folha 
Botas de açougueiro. Item fundamental para aventuras radicais com grafite e águas. Nas primeiras tentativas de pintar valetas, Milton Neto, o Febre, 23 anos, tentou com sacos pretos de lixo nos pés. "Mas não adianta nada. Furou mesmo." A solução foi comprar o par de botas brancas de um amigo que trabalhava no açougue de um mercado. A história se confunde com a de Zezão, o paulistano que se tornou referência por dedicar-se a fazer grafites em galerias pluviais.
Apesar da semelhança a priori, há uma diferença clara. Enquanto o paulista dedica-se exclusivamente a isso, fazendo da arte subterrânea (nome que deu ao seu site) o ganha pão, os grafiteiros de Curitiba praticam a modalidade mais aquática esporadicamente. "Antes a galera entrava mais nos bueiros e pintava umas valetas em Curitiba. Era uma molecada que não estava preocupada em aparecer, em Ibope", comenta Cimples, 33 anos, no grafite desde 1997.
Antes de causar uma confusão no leitor, explico. O pichar é usualmente ligado ao desenho de letras angulosas, o tag (assinatura) reto, seja com spray ou tinta látex, usualmente em muros e fachadas de prédios. O grafite, como o próprio Cimples explica, é mais elaborado e está representado em algumas das imagens que ilustram esta reportagem. Ao leitor, outra mensagem de esclarecimento: apesar da simplificação do título, ninguém entra na rede coletora do esgoto para pichar ou grafitar: os canos que saem de nossas casas tem 150 milímetros de diâmetro, onde mal cabe uma mão.
Cimples, que trabalha com design e está escrevendo um livro sobre a história do grafite em Curitiba, conta que pintar em valetas é uma coisa tranquila. Mas dedicou-se pouco ao assunto: recorda de certa feita em que grafitou na Rua dos Chorões, a Visconde de Nácar. "Tem a ver com uma busca por locais inusitados para pintar", diz. "Mas hoje a molecada está se dedicando a outras coisas, como lugares abandonados, portas de aço, baú de caminhão ou mesmo trens." Sobre o último exemplo, ele lembra que, no final do ano, foi lançada a revista "Ferrovia", com imagens de grafites em trens em Curitiba.
Marciel Conrado, o Siel, 21, há seis no grafite, é adepto dos lugares sujos, abandonados e escondidos para pintar. Ele também é conhecido por Insosso. "Tenho assinado assim, pois é um pouco da estética do meu trabalho. Meus desenhos não saltam da parede. Faço com um contorno fraco e fica essa coisa meio sem sal", diz. "O que tem a ver com a indiferença das pessoas quanto aos problemas que não são delas." Siel, que estuda Artes Gráficas, lembra que cada um tem seu estilo e acha importante buscar seu diferencial, tanto no visual quanto no ambiente. Por isso mesmo, ainda que já tenha grafitado em locais próximos a poços abandonados, não desceria ao fundo de um deles para fazer um desenho lá em baixo. "Isso se aproximaria muito do trabalho do Zezão. Também jamais faria em esgotos. Ficaria muito vinculado ao que ele faz."
Apesar de grafitar em lugares nos quais pouca gente tem acesso, Siel faz com que seu trabalho chegue até mais pessoas através da internet (veja alguns dos sites nesta página). Sempre que possível, registra suas ações com máquina fotográfica digital, o que considera importante. "Muitas vezes você volta e o local já está destruído. É da efemeridade do grafite: você nunca sabe quanto vai durar."
Na manilha
Saimuray, 20, prefere ser citado apenas com o apelido, como alguns dos personagens desta matéria. Por influência dos amigos mais velhos de onde vive, a Cidade Industrial de Curitiba, acabou pegando gosto e, aos 11 anos, fez seu primeiro grafite. "Você conhece bastante gente, conhece outras vilas e sai para pintar em outras regiões da cidade." Quando anda de ônibus, observa onde pode ser um bom lugar para pintar, se é um local em que a polícia não vai aparecer etc.
Enquanto outros grafiteiros entendem que pedir autorização para pintar vai contra a natureza contraventora do grafite, Saimuray é favorável, ainda que não costume muito pedir e prefira locais como fábricas e casas abandonadas. "Assim você pinta mais tranquilo e o que tem vontade. Quando você pede autorização e faz no muro de alguém, tem que se preocupar com o que a pessoa vai querer."
O jovem trabalha em uma distribuidora de revistas e neste ano pretende voltar aos estudos, interrompidos no primeiro ano do Ensino Médio. O objetivo é estudar Direito. "Pois não quero que o grafite seja o meu trabalho. Faço pelo prazer. Quando estou estressado, saio para pintar", diz. Há quatro meses, no caminho do trabalho, viu algumas manilhas sendo colocadas em um córrego da região. Quando a obra ficou pronta, decidiu entrar para pintar. Sobre a experiência de caminhar sete metros para dentro, sem botas ou alguma fonte de luz, ele resume. "Na manilha tudo o que você encontra é água, umas baratinhas e ratinhos. O barulho da água até relaxa um pouco."
Disse que logo se acostumou com a falta de luz e pintou no quase escuro mesmo. "Só não fui mais para frente porque não tinha o equipamento, as botas e uma lanterna. Mas foi mais tranquilo do que pintar em uma casa abandonada, onde de repente chegam uns mendigos que podem querer te roubar." O registro do grafite, que aparece nesta página, foi parar no seu Orkut.
Destro, 26, mora no Fazendinha e tem uma crew (grupo) de grafite junto com os amigos Mickay, Tree e Febre (citado no começo da reportagem). Batizada de HomenSujoz (H-Shyt), fazem grafites em diversos suportes. O "h", sendo "higienic, pois "sempre há algo produtivo no fedor". Destro, no grafite desde 2000 e na pichação, que liga às palavras bagunça e baderna, desde 1995, já pintou em muitos locais, incluindo valetas e dentro de bueiros. "Mas bueiro foi em Londrina, pois lá é mais fácil de abrir", lembra. Perto da rodoviária, grafitou em uma galeria pluvial ao lado do amigo Febre (o dono das botas).
"Faz uma copa, uns quatro anos. Usamos máscaras e entramos um por vez. Era grande e parecia uma parada de metrô. A água ia até o joelho", recorda. "Voltei lá ano passado. Não deu mais para entrar porque o nível da água subiu." Destro conta que já teve o seu tempo de sair para caçar valetas. Antes de usar botas, também optou por sacos pretos que certa vez furaram e ele se viu obrigado a ter com o seu médico. Destro lembra que a estrutura urbana da cidade é diferente de São Paulo, onde o Zezão trabalha. "São lugares sugestivos. Precisam de vida e às vezes ninguém percebe." Sobre fazer grafite em locais escondidos, o colega Febre, que trabalha como tatuador e como manipulador de fármacos (produtos para higiene bucal) dá o seu lado. "Eu faço para mim mesmo e não ligo o que os outros vão achar." Já passaram por valetas do Barigui, Cambuí, Centro Cívico e Ribeirão.
Zezão, que se dedica ao subterrâneo paulista, escreveu para a FOLHA por e-mail. "Eu não sabia que tinha gente por aí fazendo a mesma coisa que eu faço já há nove anos. Essa notícia é legal e ao mesmo tempo para mim não é também. A boa é saber que meu trabalho alcançou e acabou influenciando toda essa galera daí, mesmo sem eu nunca ter ido para Curitiba. A ruim é que não é e nunca foi legal copiar o trabalho dos outros e principalmente o meu que sempre foi único e exclusivo." O site com imagens de seu trabalho e de alguns dos personagens desta reportagem estão logo abaixo.
Sites relacionados
www.flickr.com/sielc
www.flickr.com/hshyt
www.lixocontinuo.com
www.artesubterranea.com
www.tecnokena.com.br (onde está disponível para download o trabalho de Daniella Munhoz sobre o grafite em Curitiba)


