A cena é comum: o garçom, após um bom atendimento, aguarda por uma possível retribuição espontânea do cliente satisfeito. Nem sempre ganha a gorjeta, tudo bem, faz parte do serviço. Mas aquelas moedinhas, que parecem pouco acabam sendo o diferencial, não só para o salário de muita gente, como no ambiente de trabalho em equipe.
  ‘‘A gorjeta significa muito, pois é um incentivo e acaba sendo o salário de muita gente. O salário da categoria é 435 reais e tem garçom que consegue ganhar até mil reais com as gorjetas por mês’’, contabiliza Marcos Cardoso de Souza, de 41 anos, que é garçom há quatro anos e trabalha em uma churrascaria freqüentada pela alta sociedade curitibana.
  ‘‘O cliente, quando é bem atendido, dá boa gorjeta. Eu ganhava gorjeta pra caramba’’, diz Fernanda Pereira, de 29 anos, que foi garçonete em uma bar restaurante bastante movimentado durante seis anos e, antes de deixar a casa recentemente, era a gerente.
  De acordo com o diretor jurídico da Federação dos Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares de São Paulo (Fhoresp), Damiano Gullo, o cliente pode recusar o pagamento da taxa de serviço ainda que incluída na conta. Quando a empresa coloca na nota esse valor, responsabiliza-se por rateá-lo entre os funcionários. Caso a gorjeta não esteja presente na nota, cabe ao cliente concedê-la ou não diretamente ao empregado que o atendeu.
  O pagamento das gorjetas varia bastante, de acordo com cada estabelecimento. Muitos ganham o piso, no valor de R$ 430, mais uma média de 6% quando a taxa de serviço é incluída na nota. ‘‘Acho isso um roubo, porque os 10% têm que ser do garçom. Tem casa que só paga o piso e come os 10% e tem casa que paga tudo certinho, com 13º, salário e hora extra’’, reclama Fernanda, que pretende lançar um livro sobre o assunto e outros relacionados às casas noturnas.
  De acordo com o consultor jurídico da Fhoresp, a Convenção Coletiva da categoria prevê que a gorjeta, seja qual for a modalidade adotada, integra o salário para recolhimento de encargos (inclusive Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, Previdência e contribuições sindicais), bem como o cálculo das férias e do 13º salário.
  A possibilidade de ganhar um pouquinho mais também gera um ‘‘serviço especial’’ para aqueles clientes que costumam deixar uma gorjeta mais gorda. ‘‘Já cheguei a ganhar 50 reais. Sem dúvida nenhuma, o garçom trata melhor aquele que paga mais gorjeta’’, revela o garçom Antônio Marcos França, de 25 anos, que trabalha em um restaurante no Centro da Capital.
  ‘‘Sou contra os garçons que tratam melhor para quem dá mais. Você tem que atender bem, independente se o cara vai deixar 50 centavos ou 50 reais’’, critica Fernanda. ‘‘Nossa casa não tem disso, mas quando a gorjeta é individual, o garçom costuma tratar melhor o cliente’’, afirma Marcos Cardoso de Souza, que chegou a receber US$ 100 de gorjeta de um cliente estrangeiro.
  Para evitar ‘‘disputa’’ pelos ‘‘clientes generosos’’, muitos estabelecimentos optam por dividir a gorjeta igualmente entre os funcionários, inclusive o pessoal da cozinha. ‘‘Antes o pessoal vivia brigando, existia muita desavença, então a gente passou a fazer a ‘caixinha’ para dividir a gorjeta, inclusive com a cozinha, porque tem muita gente que deixa a gorjeta elogiando também a comida’’, diz Fernanda.
  Na churrascaria onde Marcos trabalha são mais 14 garçons e a divisão foi fundamental para manter a harmonia entre os funcionários no local. ‘‘Antes a venda de vinho era comissionada e dava briga, porque a gente chega a vender 50 mil reais de vinho por mês. Agora a gente prefere ganhar menos, mas com todo mundo ganhando igual, para evitar briga’’, assegura Marcos, que chega a acumular R$ 1 mil na caixinha com os colegas em um mês.
  Celebridades - Marcos já recebeu o técnico Vanderlei Luxemburgo, o nadador Fernando ‘‘Xuxa’’ Scherer, o meia ex-coxa-branca Alex e a jogadora de vôlei Leila, ex-seleção brasileira. ‘‘O diferencial da nossa casa é o atendimento, que é igual pra todo mundo, independente de quem seja’’, garante.
  No entanto, o ‘‘jeitinho’’ de tratar clientes conhecidos de forma especial não só mantém os fregueses como também ajuda na hora de receber a gorjeta. ‘‘Quando a gente conhece o sistema de cada cliente, então a gente oferece. O Mario Celso Petraglia (presidente do Conselho Deliberativo do Atlético), por exemplo, não vai para o buffet pegar comida, a gente leva para ele. Outros gostam de tal vinho, então a gente já sabe e leva. O cliente que é exigente é quem deixa a gorjeta’’, comenta Marcos.
  ‘‘Teve uma vez um cliente que nunca deixava gorjeta e até mesmo dividia a água na conta com a esposa. Quando ele deixou gorjeta foi algo muito especial porque a gente sentiu que atendeu ele bem’’, lembra o garçom, que destaca o fato da gorjeta ser a conseqüência de um bom serviço prestado e não o motivo do mesmo.
  De acordo com enquete com a pergunta ‘‘Você costuma dar gorjetas para garçons em bares e restaurantes?’’, realizada pela Folha no portal Bonde (www.bonde.com.br), 88% dos internautas responderam que ‘‘Não, eles já são pagos pelo serviço que prestam’’ e outros 12% optaram por ‘‘Sim, e a gorjeta aumenta conforme a qualidade do serviço’’. O levantamento não tem caráter científico mas reforça a idéia de que os garçons precisam mesmo oferecer um serviço especial para receber uma retribuição a mais por isso.
  E, para manter o diferencial, Marcos dá a dica: ‘‘Sempre ficar atento, se o copo está ficando vazio, a gente oferece mais alguma coisa, se o prato está sujo, a gente troca. Tem alguns macetes, é preciso tratar bem’’, explica.

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