FOLHA DE LONDRINA: Quais são as competências da prefeitura?
RICARDO GOMYDE: A prefeitura tem que administrar o ensino municipal, investir um mínimo de 25% do orçamento. A lei fez a vinculação de 18% das receitas da União e 25% dos Estados e Municípios tem que ser investidos em educação. Tem a vinculação constitucional da saúde. A questão da segurança é uma questão fundamental porque, muito embora não seja de competência direta do município, não cabe ao prefeito de Curitiba a omissão, se esconder atrás de um biombo e dizer que a responsabilidade sobre determinado assunto é de outra esfera, porque a arrecadação também é de outra esfera.
O prefeito de Curitiba tem que liderar politicamente a cidade para poder exigir das outras esferas a responsabilidade que Curitiba merece. Curitiba tem uma participação pequena no orçamento da União se comparado com outras capitais. O lobby político a favor de Curitiba é muito pequeno. Fui deputado federal e vi que outras cidades e até outros estados - o Paraná também é fraco nisso - tinham uma articulação no Congresso. Aqui não. Isso faz com que a gente seja pouco importante para o orçamento da União.

FOLHA: Como o senhor vê a questão da segurança pública em Curitiba?
GOMYDE: O município tem a Guarda Municipal que não tem poder de polícia, tem apenas a função de proteger o patrimônio público. Mas a prefeitura pode interferir diretamente na segurança pública inclusive cobrando soluções das polícias Militar e Civil. Essa questão é muito emblemática. Tenho propostas para a segurança pública que não dizem respeito ao município, dizem respeito ao governo do Estado.
Temos a Guarda Municipal, que pode ser muito importante e já é importante. Ela não se comunica com as polícias Civil e Militar por um problema político. Aquilo que é acumulado na Guarda Municipal não é transferido para as polícias. Não estão atuando de maneira conjunta. Cada um faz a sua parte de maneira estanque sem se comunicar. Isso tem que ter: integração das polícias. Esse é o maior problema.

FOLHA: Na sua opinião quais são os limites de atuação da Guarda Municipal?
GOMYDE: A Guarda Municipal pode prestar um serviço para a inteligência das polícias. Por ter um grande efetivo e por estar próxima da comunidade. Ela pode detectar onde estão os pontos de distribuição de drogas, pode fornecer informações para que a prefeitura haja com firmeza caçando alvarás de bares, de estabelecimentos que estejam funcionando de forma irregular ou que está infringindo alguma lei. Por exemplo, um bar que vende bebida para menores de idade, vende cigarro para crianças.
A Secretaria de Segurança tem dados que comprovam que a maioria dos atos violentos ocorre nas proximidades de bares, muitos que estão atuando de maneira irregular. Então ela pode fornecer esses dados para que a prefeitura cace o alvará. Acho que essa guerra tem que ser comprada pela prefeitura. Depois do ponto de vista do combate efetivo. A Guarda Municipal pode dar voz de prisão, como qualquer cidadão pode dar voz de prisão se encontrar algum ato que fira a lei. A Guarda Municipal bem treinada, com o efetivo que tem e contribuindo para gerar informações em parceria com a polícia Civil e Militar, pode dar uma contribuição muito maior do que a que dá hoje.

FOLHA: Na sua opinião qual o serviço da prefeitura hoje que é prestado de forma mais eficiente e qual precisa de mais investimentos?
GOMYDE: A saúde pública é relativamente boa. Por que eu digo isso? Porque comparada com a saúde pública de outras cidades a nossa não é um horror. Tem avanços. Principalmente por conta do nosso quadro técnico. São pessoas que se doam, que fazem um bom serviço apesar das dificuldades. Há carências. Há demora entre a consulta e o exame especializado. Temos diversos problemas que precisam ser enfrentados. Está longe de ser perfeita.
O pior serviço é o planejamento urbano. Por quê? Porque Curitiba era uma referência nacional e internacional em planejamento urbano. Curitiba teve dois ''insights'' extraordinários. O Plano Agache, um plano estruturante que orientou o crescimento da cidade e o Plano Diretor e a criação do Ippuc (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba), que foi um dos vetores do crescimento planejado de Curitiba. A cidade se antecipou aos seus problemas e criou soluções. Hoje os problemas estão engolindo a cidade. Não se planeja mais.

FOLHA: O senhor acredita que é necessário implantar o metrô em Curitiba?
GOMYDE: O que eu sei é que em toda eleição o metrô é discutido como prioridade para a cidade e passa a eleição e ele não vem. Falta articulação política para angariar recursos. Dinheiro tem. Há inúmeros financiamentos para esse tipo de obra. Curitiba tem que ter uma solução de transporte de massa radical. O metrô demora para ser feito. Ele tem um problema muito grande em relação ao tempo e ao custo. Mas não existem cidades grandes sem metrô. E foi a solução para o transporte em Nova York, Paris, Londres. Curitiba é uma cidade grande. O metrô é uma alternativa cara, demorada, mas necessária para a cidade.

FOLHA: Como seria a implantação do metrô na sua gestão? De onde virão os recursos?
GOMYDE: A questão do metrô é uma questão de parcerias com o governo federal, com organismos internacionais, Banco Interamericano. Curitiba tem capacidade de endividamento. Agora alguma coisa tem que ser feita. Qual é o problema de Curitiba na área de transporte? Caiu a qualidade do transporte coletivo, a cidade deixou de investir em novos modais.
Então não tem mágica. Vamos melhorar a qualidade do transporte coletivo, apostar em novos modais de transporte, como a bicicleta. Vamos ter campanhas educativas para estimular as pessoas a deixarem o carro em casa.

FOLHA: Como tornar o transporte coletivo mais atraente para a população?
GOMYDE: O transporte coletivo tem que passar por uma licitação. Grandes empresas de todo o País poderão participar porque a melhora da qualidade é fruto da concorrência. O edital tem que ser superbem elaborado. Vamos estimular a concorrência, melhorar a qualidade e, se possível, abaixar o preço.

FOLHA: Quais são suas propostas na área da saúde?
GOMYDE: Vamos conseguir recursos para melhorar o atendimento. Vamos ampliar o treinamento dos servidores que são muito bons e dedicados. Vamos investir de maneira pesada para diminuir três problemas. O socorro de emergência está defasado em Curitiba. Isso tem que ser equacionado. Precisamos talvez ter um hospital municipal ou aumentar o número de convênios para atender melhor esse tipo de ocorrência. Segundo, cresce de maneira assustadora o número de pessoas com problemas de alcoolismo e dependência química. São raríssimas as vagas para tratamento dessas pessoas. Precisamos ampliar através de parcerias com igrejas, entidades da sociedade civil que já realizam esse trabalho. Por fim, há o problema na demora no atendimento para as consultas e exames especializados. Isso tem causado uma deterioração na saúde de vários curitibanos. Faremos mais convênios com laboratórios.

FOLHA: O senhor acredita que há como avaliar o ensino municipal?
GOMYDE: Existe, pelo Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica). Curitiba ficou com a melhor colocação entre as capitais, muito embora o desempenho tenha caído. E isso não quer dizer que a educação daqui seja uma maravilha. Curitiba tem que melhorar sua educação. Na educação vamos focar os esforços inclusive orçamentários. Não tem como aceitar que um aluno do ensino fundamental saia da escola sem o domínio do espanhol. Faremos um esforço concentrado para que as escolas municipais possam formar o curitibano tal como as melhores escolas particulares da cidade. Vamos implantar o ensino do espanhol, o ensino de música. Primeiro porque a música sozinha é importante. E também já foi comprovado que a música melhora a capacidade cognitiva da criança. Tem que ter contra-turno escolar. Eu, na Paraná Esporte, criei o programa Segundo Tempo, que está implantado em muitas escolas municipais. Fiz os jogos colegiais nas escolas.



Ricardo Gomyde
Principais propostas


✓ Integrar a Guarda Municipal às polícias Civil e Militar.

✓ Implantar o ensino de espanhol e de música nas escolas municipais.

✓ Licitar o transporte público e construir o metrô com o apoio de parcerias com o governo federal e órgãos internacionais de financiamento.

✓ Investir em novos modais de transporte como a bicicleta.

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