GIGANTE ABANDONADO - O fantasma que assombra o Yara
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sábado, 27 de março de 2010
Wilhan Santin<Br>Reportagem Local 
A 9 km de Bandeirantes (Norte Pioneiro), pertinho do encontro das águas dos dois rios mais importantes da região, o das Cinzas e o Laranjinha, um hotel de arquitetura imponente, construído na década de 1950, sofre a ação do tempo, abandonado. Perto dele, na beira da estrada, outras construções da mesma época estão em situação semelhante.
Em frente ao hotel, que tinha nada menos do que 200 quartos e abrigava até um cassino - onde o dinheiro corria a rodo nos carteados de pôquer -, uma fonte não para de jorrar. Dela, sai uma água termal. A insistente fonte, que traz para a superfície um líquido oriundo de uma profundidade de mais de 100 metros, a 32ºC, é a razão da existência do hotel e de toda essa infraestrutura. É também por causa da água, que teria até propriedades medicinais, que os atuais proprietários têm nas mãos um projeto milionário para transformar o lugar em estância turística.
Porém, dono de uma história com ares de espetacular, repleta de glamour, pompas e de um fim trágico de seu fundador, o Termas Yara é assombrado por um fantasma, o da batalha judicial. Ele não deixa ir para frente os planos do casal que adquiriu as terras há oito anos.
Tudo começou com um italiano naturalizado brasileiro, Domingos Regalmuto, homem que fez dinheiro com serrarias em São Paulo para depois comprar uma vastidão de terras, mais de 500 alqueires, no sertão norte-paranaense. Acostumado aos negócios, ele logo percebeu, nos anos 1930, que as águas que afloravam em suas terras tinham odor e paladar particulares. Em 1942, um laudo da Universidade Federal do Paraná (UFPR) comprovou que a água era mesmo mineral hipotermal e de aplicação terapêutica.
Bastou para que Regalmuto transformasse água em dinheiro. Passou a engarrafá-la e chamou a sua água mineral Yara de a ''deusa das águas''. Além disso, projetou e construiu o complexo termal, com a piscina abastecida pelo chafariz, e um hotel de causar inveja, só acessível a bolsos com um certo recheio, construído com banheiras nos quartos e materiais de primeira qualidade, coisa de europeu. Os menos abastados acampavam ou dormiam nos carros para poder usufruir dos poderes das águas e da lama do lago próximo à piscina, à qual muitos também atribuíam o poder de curar doenças.
Quem tem toda essa história na ponta da língua e também bem registrada em material escrito é o serventuário da justiça aposentado Walter de Oliveira, 77 anos, sete deles morando dentro do hotel. ''O restaurante tinha até maitre. O carnaval era o melhor da região. Ônibus chegavam às dezenas trazendo gente para passar os finais de semana. No campo de pouso construído pelo Regalmuto dentro do termas, desciam os aviões da Real Aerovias, os Douglas DC-3, que faziam a linha São Paulo-Maringá'', ele conta.
Em volta, o ''italiano'' criou uma estrutura que chegou a chamar de ''Cidade Yara'', vendendo lotes. Até igreja ergueu para servir aos seus hóspedes, a Capela São Domingos, inaugurada em 1º de setembro de 1954, data registrada em concreto no alto da torre.
Tudo ia bem até que a saúde de Regalmuto começou a falhar. O problema era uma trombose, que lhe custou as duas pernas, amputadas, quando ele já passava dos 80 anos. A morte veio logo em seguida. Suicídio. O único herdeiro, Paulo Regalmuto, morreu dois anos depois, pilotando um carro envenenado com destino a São Paulo. Trombou com um caminhão em Cambará.
No início da década de 1970, Dona Katerine Erdely, a mãe de Paulo, herdou tudo, mas, descontente, vendeu o lugar para Paschoal D'Andrea, um grande comerciante do ramo imobiliário.
''O D'Andrea fez um trabalho excelente. Regularizou os 660 lotes que formavam a 'Cidade Yara'. Todos foram vendidos, mas pouquíssimos donos haviam aparecido para tomar posse. Aos poucos foi loteando partes rurais e começou o trabalho para levar o asfalto até o termas. Mas quando as máquinas finalmente chegaram para tornar a PR-519 uma realidade, ele ficou doente e morreu'', explica Oliveira.
Os filhos de D'Andrea permutaram a área com a família Matsubara por uma outra fazenda em Cornélio Procópio. Começava o declínio e o abandono do Yara. Em 2002, o casal Rafaela e Cláudio Delgado comprou 48 dos 98 alqueires que restaram da propriedade. Mas até hoje não conseguiram regularizar a escritura.


