São Paulo - As empresas de call center cansaram, enfim, de ''estar enviando'', ''estar transferindo'' e ''estar confirmando''. Depois de proliferarem o gerundismo, elas agora contratam professores de português, promovem concursos de redação e até diminuem a bonificação salarial de funcionários que insistirem na prática. Além da irritação do cliente, a ligação fica mais longa e se perde dinheiro, justificam. A população agradece.
Ninguém tem uma explicação comprovada, mas o que se diz no setor é que o gerundismo veio de carona em manuais de call center, escritos em inglês. O telemarketing, que é a venda pelo telefone, e o serviço de atendimento ao consumidor (SAC) explodiram no País no fim dos anos 90, com a privatização das telecomunicações. Os grupos estrangeiros trouxeram prontos alguns scripts como são chamados os textos que aparecem na tela do computador enquanto o operador fala com o cliente. Neles, ''I will be sending'', por exemplo, teria sido traduzido como ''Eu estarei mandando''.
Não foi difícil multiplicar esse, digamos, futuro do gerúndio quando se fala em um dos setores que mais emprega no País atualmente. São quase 600 mil profissionais, a maioria jovens em seu primeiro emprego. ''As pessoas imaginam que usando uma estrutura mais rebuscada, se preserva a seriedade do produto vendido'', diz o linguista José da Silva Simões, que elabora uma tese de doutorado na Universidade de São Paulo (USP) sobre gerúndio. ''Dizer apenas 'vou mandar' parece uma estrutura muito popular.'' Simões não acha errada a estrutura que se convencionou chamar de gerundismo, mas diz que é pesada e poderia ser evitada.
Praga ''É uma praga'', diz a vice-presidente da Associação Brasileira de Telemarketing (ABT), Ana Maria Moreira Monteiro, que é também presidente da AM3. ''De cada cem currículos que recebemos na empresa, só dez não têm problema com gerundismo.'' Seus funcionários fazem exercícios em que têm de decupar o que falam ao telefone. São desafiados a transformar 20 linhas de conversa em apenas duas. ''Tirando o gerundismo diminui bem. Com ele, a ligação fica longa e a gente paga mais'', completa Ana Maria.
Na primeira seleção que fez na empresa, Cristiane Reina, 23 anos, foi recusada pela dificuldade em usar o futuro simples. Acabou sendo chamada depois para outra vaga e teve de passar por um rápido cursinho de português antes de ser contratada. Uma placa de 'proibido gerundismo' ao lado do computador a ajudou a eliminar o problema. ''Soa bonito e eu achava que era certo'', diz. ''Mas hoje já dói o ouvido.''
A Dedic, do grupo Portugal Telecom, que tem 14 mil funcionários, também oferece aulas regulares de português a seus funcionários e criou um concurso que premia o melhor conto ou poesia. Um dos objetivos é acabar com o gerundismo. ''O atendimento tem de ser conclusivo. Se o operador diz 'vou estar alterando seu cadastro', o cliente não entende se ele já alterou ou não'', diz o presidente da Dedic, Miguel Cui Filho.
''Engraçado que ninguém fala: vamos estar tomando um chopinho?'', diz o gramático Francisco de Moura, que foi contratado pela Dedic e notou que quem não usa o futuro simples acha que está sendo ''mais polido'', por isso a estrutura fica restrita ao ambiente de trabalho.
Mesmo nas estruturas tidas como gramaticalmente corretas, o gerúndio não era bem-vindo no século 19 nem na literatura nem na imprensa brasileira. ''A forma fazia parte do português clássico já nos séculos 16 e 17, mas foi abandonada em Portugal, que passou a usar 'estou a ler' no lugar de 'estou lendo''', explica o professor Simões.

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