O efeito estufa provoca o aumento dos extremos climáticos: frio intenso no inverno e forte calor no verão
O efeito estufa provoca o aumento dos extremos climáticos: frio intenso no inverno e forte calor no verão | Foto: Fotos: Shutterstock



Até o ano 2050 estima-se que as mudanças climáticas observadas no planeta devam causar um prejuízo da ordem de US$ 30 trilhões a US$ 50 trilhões. Esse valor é o custo que o efeito estufa terá para a humanidade, com as alterações do regime hídrico na Terra. A estimativa é feita por pesquisadores das universidades de Harvard e Yale, nos Estados Unidos.

Em 2009, uma pesquisa publicada pela revista científica Nature identificou os principais problemas ambientais. O mais grave deles, segundo o estudo, é a perda da biodiversidade provocada pela aceleração do processo de extinção das espécies, que hoje está mil vezes acima da velocidade natural de extinção, indicando uma grande instabilidade planetária.

O segundo fator que aponta a superação da capacidade de suporte planetário é o aumento do ciclo do nitrogênio fosfo-reativo para ampliar a produção agropecuária e que tem como consequência a elevação da concentração de nitrogênio fóssil nas águas, promovendo um desequilíbrio muito importante na natureza.

As mudanças climáticas, que implicarão no prejuízo de trilhões de dólares à humanidade, aparecem apenas em terceiro lugar na lista dos principais desequilíbrios, mas certamente é o problema mais sentido pela população mundial, causado pelo aumento da emissão de CO2 (gás carbônico) na atmosfera.

As emissões de carbono hoje estão na faixa de 4 bilhões de toneladas por ano. Entre os anos 2000 e 2009 o acúmulo de carbono na atmosfera somou cerca de 40 bilhões de toneladas. "É muita coisa", atesta Cleverson Vitorio Andreoli, doutor em Meio Ambiente e Desenvolvimento, professor do Mestrado em Governança e Sustentabilidade do Isae/FGV e diretor da Andreoli Engenheiros Associados, de Curitiba. "Em 1960, nós tínhamos 317 ppm (partes por milhão) de carbono na atmosfera. Em 2015, eram 398 ppm. Esse é um aumento brutal para um período de 55 anos. Uma alteração de concentração dessa em condições naturais levaria 30, 40, 50 mil anos para acontecer", compara ele. Andreoli será palestrante do EncontrosFolha que acontece nesta sexta-feira (28) e que tem por tema "Como as Mudanças Climáticas Desafiam o Crescimento Econômico".

É do aumento de CO2 na atmosfera que decorre o efeito estufa, causador da elevação da temperatura na Terra. Em 2013, o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) apontou uma chance de 95% da ocorrência do aumento da temperatura planetária causado pelas atividades antrópicas.


A primeira alteração ambiental percebida com as mudanças climáticas é o aumento da temperatura média planetária
A primeira alteração ambiental percebida com as mudanças climáticas é o aumento da temperatura média planetária



"Os problemas das mudanças climáticas são basicamente dois", aponta Andreoli. "O primeiro é que o aumento da temperatura muda o comportamento da atmosfera e a primeira coisa que se sente é um aumento da temperatura média planetária. E o segundo problema é que com o aumento do efeito estufa aumentam-se os extremos climáticos. Quando faz calor, faz mais calor, quando faz frio, faz mais frio e quando chove, a chuva é mais intensa. Já foram observados dois tornados subtropicais no Brasil nos últimos dez anos que nunca tinham sido observados por aqui", explica o professor da Isae/FGV.

Como efeito dos extremos climáticos vêm as cheias seguidas de prolongados períodos de estiagem, além de invernos cada vez mais secos e verões ainda mais chuvosos. "Isso reduz o que a gente chama de disponibilidade hídrica", diz Andreoli.

Para um país como o Brasil, em que boa parte da economia é sustentada pela atividade agrícola, a maior intensidade de chuvas eleva a erosividade, carreando para os rios uma quantidade maior de solo e, junto com ele, os adubos, os nutrientes e também os agrotóxicos. "As empresas, principalmente as grandes, já entenderam que as mudanças climáticas podem causar grandes prejuízos", afirma. O prejuízo mundial estimado de até US$ 50 trilhões será o custo que a humanidade terá de pagar pelo agravamento do efeito estufa.


Imagem ilustrativa da imagem Gerações futuras pagarão a conta



ÁGUA
As alterações do regime hídrico, destaca Andreoli, vão fazer com que a população tenha que ter mais eficiência na gestão da água para evitar a escassez do produto e também vai causar a elevação do nível dos mares entre 30 centímetros e um metro e meio, o que pode significar uma catástrofe para as cidades e países litorâneos. "Se você puser uma bala no tambor de um revólver e ficar brincando de roleta russa, a chance de entrar uma bala na sua cabeça é de 16,66%. Numa previsão pessimista, a chance de que a gente tenha uma subida do oceano de um metro e meio até 2100 é de 17%. Então, o mundo está brincando de roleta russa com o meio ambiente", diz Andreoli. "Você imagina o mar subir um metro e meio, o que aconteceria com o Rio de Janeiro, Salvador, com o Japão, as Ilhas Virgens, a Holanda? Seria uma catástrofe mundial sem precedentes."

Um metro e meio de água salgada em uma cunha salina do Rio Amazonas, ressalta o professor, levaria entre 40 e 50 quilômetros de água salgada para dentro do rio. "A mudança ambiental que iria ocorrer em toda aquela área seria para a natureza uma coisa brutal."

SOLUÇÃO
A solução para o efeito estufa, afirma Andreoli, passa pela descarbonização da economia. Cada dólar produzido libera uma quantidade específica de CO2 na atmosfera. Esse cálculo permite medir a carbonização da economia e, a partir dele, podem ser definidas ações para reduzir as emissões de gás carbônico no planeta.

A boa notícia é que há várias formas de se fazer isso. A primeira delas é a substituição de combustíveis fósseis por outras fontes de energia renováveis, como as energias solar e eólica ou mesmo a energia proveniente da biomassa. Mas entre as alternativas possíveis, a que mais se destaca é a chamada eficientização energética, utilizando equipamentos de menor consumo energético, ou a otimização dos processos na construção civil, optando pelos green building, que empregam técnicas de isolamento térmico resultando na redução dos custos com energia para garantir o conforto climático. "Os cientistas estimam que a eficientização energética é capaz de gerar uma redução de cerca de 28% de energia consumida no mundo hoje", diz o professor. "Quando o empresário faz um uso mais eficiente de energia, ele economiza e reduz os impactos ambientais."

Outra opção é capturar o CO2 produzido nas termelétricas, por exemplo, e transformá-lo em CO2 líquido. Após esse processo é possível propor alternativas para que esse gás carbônico não volte para a atmosfera, como a carbonatação mineral, o emprego na indústria, a injeção do gás carbônico líquido de volta nos poços de petróleo ou até mesmo o seu armazenamento no fundo dos oceanos.

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