GELADEIRA - A Consul dos avós
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 04 de fevereiro de 2009
Rafael Urban<br> Equipe da Folha 
Quando o passageiro está prestes a bater a porta do Fusca cinza londrino 1985 de meu avô, ele pede para fechar com carinho, como se fosse uma geladeira. Ao escolher ele, Fernando Wandratsch Filho, 77 anos, e minha avó, Nelly Frederico Wandratsch, 78, como personagens de estréia desta coluna, faço uma opção simbólica. Tal como a casa deles, que por sinal nunca havia aparecido nas páginas da FOLHA, 91,4% das residências brasileiras e 97,2% das casas do Sul do País têm geladeira. Os dados ficam por conta da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, a PNAD de 2007.
A partir de hoje e sempre às quartas-feiras, contarei histórias de pessoas comuns, as mesmas que nos damos conta são especiais ao olharmos para a maneira como organizam o eletrodoméstico que só perde para a televisão (94,8%) e fogão (98,2%) em presença nas residências brasileiras. A coluna Geladeira substitui a Dois Lados, que trouxe para o debate assuntos tão diversos quanto o gosto pelo rollmops e o Carnaval de Curitiba.
A Frigidaire, pesadona, foi para a casa de praia com a chegada da Consul Biplex, comprada em 1984. Da época em que moravam em uma casa, Nelly e Fernando ainda trouxeram o fogão, a secadora e a máquina de lavar roupas quando mudaram para o apartamento no Bigorrilho há 20 anos. "Não vê como está nova a geladeira da sua avó?". Um guardanapo de pano, do enxoval do casamento, que tem a data de quatro de julho de 1957 marcada na aliança, protege o ponto de abertura da porta. "A toalha de mesa eu já dei. Só fiquei com alguns guardanapos. Eram 12", lembra a avó, Nelly, casada com meu avô há 51 anos.
Na parte superior da porta há 17 imãs, 11 dos quais foram presentes da filha Jeanice, irmã de minha mãe e moradora de Londres há 19 anos. "Desde o dia 18 de março de 1990. Três dias depois da posse do presidente Collor", comenta Fernando. Enquanto lembranças de viagem ficam na geladeira, no freezer estão 66 imãs, de pizza a telefone de gás. "Isso aí tudo precisa, véia", comenta o meu avó, quase parafraseando um personagem de Dalton Trevisan, com um toque a mais de carinho. "Pai", "Nega" e "Santa" são alguns dos codinomes trocados pela dupla.
Ainda na porta, um lista com lembretes das coisas a fazer. Sinal dos tempos. "O pai as vezes esquecia das coisas e perdia os papéis." As marcações vão de consultas médicas aos valores a prazo e à vista do IPVA, numa folha presa por um imã de Porto-Seguro. "De uma viagem que fizemos ao exterior, aos Estados Unidos da Bahia." Fernando, fã de seu próprio linguajar, explica. "Cada estado nosso é maior que muitos países." Portas abertas, o que mais chama à atenção são os vegetais, todos embalados em sacos plásticos - com exceção dos tomates. Tudo para proteger e evitar cheiros indesejáveis.
Os yakults são 28. "Comprei em uma oferta. Calculei e vai durar até o dia 17. Tomamos dois por dia, às onze da noite." Como lembra minha avó, ele é maníaco por supermercados. Evita a "forca", nome que dá ao mais caro da cidade, e só compra em outro que também é caro quando encontra alguma oferta especial em folhetos. Faz tomada de preços e, para economizar, já comprou 160 rolos de papel-higiênico de uma vez e 48 litros de suco de caju em outra oportunidade. Meu avô, militar aposentado, sempre tenta ignorar as datas de validade dos produtos. Ele promete qualquer hora abrir a lata mini de Coca Light que está na geladeira e venceu em abril de 2008. A minha avó, Nelly, que se identifica como "do lar", é a dona da geladeira e retruca. "Não senhor, vai jogar fora amanhã!".


