Uma das lembranças mais antigas da chefe Eva Santos é quando ela tinha oito anos e ajudava os pais no restaurante de beira de estrada que a família mantinha no Paraguai, país onde ela nasceu. Panelas, ingredientes exóticos e aromas fizeram parte do crescimento da moça, que não esconde que isso certamente a influenciou no gosto pela cozinha, que carrega desde a infância. Mas, a gastronomia como profissão não veio assim de ''mão beijada'' para essa curitibana de coração.
Do Paraguai, Eva mudou-se com a família para Bandeirantes e lá ficou até os 15 anos, quando a mãe morreu. ''Eu não queria que Deus me levasse também antes de eu conhecer o mundo'', revela. E foi com esse pensamento que a adolescente fugiu de casa em direção à Capital do Estado. Queria ser estilista, mas, em Curitiba, trabalhou de vendedora à babá. E foi cuidando de crianças que a sua paixão pela culinária começou a tomar forma. A mãe dos pequenos, que trabalhava em um hotel, elogiava o gosto de Eva e a incentivou a trabalhar na área.
Foi quando ela foi trabalhar na cozinha de um bar, a noite, para dar conta de fazer o curso de cozinheira no Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), durante o dia. Sete anos se passaram em um ambiente de muito trabalho e pouco glamour, como acontece hoje com quem se arrisca na culinária. Anos mais tarde Eva trocou o bar que trabalhava e a ''comida de boteco'' pelo Vox, casa que já tinha uma preocupação maior com a gastronomia. Com um pouco de experiência, pensou alto e logo bateu na porta do chefe que é referência da alta gastronomia em Curitiba para pedir um estágio. Com cara, coragem e dedicação conquistou estágio e espaço no Boulevard, um dos restaurantes mais premiados do Brasil, com cardápio assinado por Celso Freire.
''Eu disse a ele: não sei cozinhar, mas quero aprender''. Isso foi há quase dez anos e Eva começou um longo caminho rumo à gastronomia de qualidade. Foi uma época de muito trabalho e dedicação. ''Eu trabalhava umas 15 horas por dia, quase não via o sol. Mas, não me arrependo'', conta a chefe, que foi a primeira mulher a assumir o fogão da cozinha do Boulevard. ''A cozinha demanda muita responsabilidade'', considera.
Tanto trabalho e responsabilidade também tem seu preço e Eva decidiu recuperar-se dos anos de dedicação que lhe renderam problemas de saúde e até uma depressão. Arriscou e saiu do Boulevard, mas não demorou muito a ser chamada para outro estabelecimento bastante conhecido - e tradicional - em Curitiba, o Restaurante Bar do Victor, onde comanda a cozinha até hoje.
Ela começou a ir pouco ao restaurante especializado em frutos do mar e que já tem quase meio século de existência, até que, tomada pela paixão pela cozinha, assumiu de vez a cozinha da casa. Ali mesmo, incentivada pelo atual proprietário, deu início a uma nova trajetória de estudos e pesquisas. O que lhe rendeu o título de '' Chef Revelação'' no Prêmio Gula de 2005. Este ano, ela passou uma temporada na Espanha. Por lá, cozinhou e aprendeu com os melhores chefes do mundo. Estágios com renomados chefes brasileiros, como Sergio Arno, também integram o currículo da moça.
E depois de tanta experiência, escolher apenas uma receita para ensinar aos leitores da FOLHA fica difícil, mas Eva optou por um Arroz de Bacalhau que tem uma história peculiar e tem preparo relativamente simples. ''O Francisco Urban (proprietário da casa) me disse que gostava muito de arroz. Desenvolvemos um cardápio especial com o grão, que é bem diferente do risoto'', conta. O arroz foi testado e aprovado e vai fazer parte do cardápio do bistrot do Bar do Victor, que Francisco vai abrir em dezembro, no Espaço Gourmet do Parque Barigui. A nova casa também vai ter cardápio assinado pela chefe. Até lá, é possível fazer o prato em casa, mas provar o original, feito pelas mãos da dedicada chefe, é uma experiência única.

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