GASTRONOMIA - Culinária em família
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terça-feira, 25 de março de 2008
Katia Michelle<br>Equipe da FOLHA 
Curitiba - Algumas receitas parecem próprias para serem degustadas em família. Panquecas entram nessa categoria. Desde o preparo da massa e a maneira de fritar as unidades, até o momento de recheá-las e finalmente prová-las. Um processo que pode se transformar em diversão, com ajuda de todos e sem restrição de idade. É assim na família Ávila, onde a receita desenvolvida pela matriarca Nayr Ávila atravessa gerações sem perder o gostinho de novidade. A receita, aliás, não é a única a agradar a família.
Os quatro filhos de dona Nayr cresceram vendo-a cozinhar. Não me lembro da minha mãe de vestido, só de avental, diverte-se a paisagista Adriene Ávila. Quando morava no Rio Grande do Sul, onde a família foi criada, Nayr chegou a editar um livro de receitas para arrecadar fundos para associações beneficentes que ajudava. O livro Coletânea de Receitas traz pratos caseiros, simples e sofisticados, mas quase todos com uma característica em comum: foram batizados com nomes de alguém da família. Assim, a panqueca ganhou o nome da filha Adriene.
Noras, cunhadas e amigas também foram homenageadas. O resultado é um passeio pela história da família e um resgate de memórias que ressurgem entre os ingredientes e receitas citadas no livro. Tudo isso agora tem um gosto ainda mais especial. Editado há mais de 20 anos, o livro está sendo revisto pelo economista Arthur Ávila, que vem testando as receitas e trazendo à tona as lembranças familiares. Hoje, Dona Nayr está com Mal de Alzheimer e os filhos colocam a mão na massa para manter a tradição familiar.
Tradição que teve tanta influência na família que, já em Curitiba, Arthur e Adriene chegaram a montar um empreendimento cultural e gastronômico que tinha no cardápio alguns segredinhos familiares. O bar Original, por anos referência na Capital, também foi palco para algumas aventuras dos irmãos quando o assunto é culinária. Como no dia em que os cozinheiros faltaram e nós dois fomos para cozinha. Fomos aplaudidos pelos clientes, que aprovaram os pratos, conta Arthur.
Dos quatro irmãos, ele é o mais próximo da arte culinária e ressalta. Com a minha mãe aprendi não só a fazer a comida, mas sim os detalhes. O tempo para fazer o molho, as texturas recomendadas para cada ingrediente, revela. Dicas que são de muita importância para quem quer se aventurar na cozinha. Com ela, aprendi vários fundamentos da culinária, diz complementando que a mãe, mesmo quando a gastronomia ainda não tinha todos os holofotes que recebe hoje, já tinha alguns princípios na cozinha que hoje são regras. Como o fato de usar na receita, a mesma bebida que se vai à mesa, ou seja: de boa qualidade.
Arthur utiliza esse princípio para escolher os ingredientes e também dá umas escapadas da receita original para testar novos pratos, sempre usando os fundamentos que aprendeu com a mãe. Mas a receita da massa da panqueca, que é sagrada, não pode ser modificada e, seguindo as recomendações, ela sempre dá certo, conforme ele garante.
Essa é uma receita de família, então, peça ajuda a todos. Enquanto um faz a massa o outro vai enrolando (a panqueca, é claro) e montando o prato, ensina Arthur. Ele revela ainda alguns segredinhos que ajudam a manter a tradição: não esquentar a panqueca no microondas para que a massa não perca a consistência e, se for levar ao forno, tomar cuidado para que a panqueca não seque. O molho pode ser o de preferência da família. O de carne é tradicional, mas pode levar frango, camarão, ricota ou o que a imaginação mandar. Em qualquer caso o ideal é servir logo após o preparo. E se divertir comendo.


