Garimpeiros da biblioteca local
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 20 de janeiro de 2009
Rafael Urban Equipe da Folha 
''Sabado, do meio dia ás 2 horas da tarde, distribuem-se nesta typographia orações próprias para implorar a misericórdia de Deos no tempo da peste.'' A grafia acusa: o texto é de época. Do primeiro jornal do Estado, O Dezenove de Dezembro, que circulou de 1854 a 1890. O periódico é um dos 800 jornais paranaenses disponíveis ao público na Divisão de Documentação Paranaense da Biblioteca Pública do Paraná (BPP). Em 2008, o espaço dedicado à memória do Estado serviu de consulta para 137.835 exemplares de jornal em papel e 10.854 entre revistas e jornais em microfilme, caso do O Dezenove de Dezembro.
As máquinas, obsoletas, são da década de 1990. ''O difícil é que na leitora de microfilme só da para ver um quarto da página por vez'', reclama o funcionário público aposentado Carlos Alberto Brantes, que aos 61 anos passa entre 12 e 15 horas semanais na Biblioteca Pública. ''E mesmo que disponível não dá para ficar mais de duas horas olhando para a tela; o pescoço dói.'' Entre breves biografias de personagens incógnitos da história do Estado, ele fez uma seleção com os anúncios curiosos publicados nos quatro primeiros anos do jornal O Dezenove de Dezembro - entre eles, o de dois de janeiro de 1856 citado na abertura desta reportagem.
A responsável pela divisão logo avisa: é de interesse da BPP modernizar e facilitar o acesso ao acervo. ''Mas o microfilme é o meio seguro de preservação e disponibilização da informação'', diz Josefina Palazzo Ayres, 52, chefe da divisão desde 2002. Enquanto a digitalização de todos os volumes ainda é um sonho distante, uma vez que os custos materiais e de pessoal são altos, mais próximo está a compra de um novo equipamento. Uma digitalizadora de microfilme, o objetivo mais imediato, custa cerca de R$ 65 mil e permitiria aos pesquisadores terem cópias dos materiais microfilmados.
O economista Domingos van Erven, 59, que costuma passar de quatro a cinco horas semanais na BPP, acredita que seria importante a digitalização do acervo, especialmente para facilitar acesso aos pesquisadores de outras regiões. ''É um potencial muito grande de informações reunidas que podem dar origem a diversos trabalhos.'' Ele elogia a série de materiais de referência presentes na sessão de livros raros da divisão. Entre eles, o Dicionário Histórico e Geográfico do Paraná, de Ermelino de Leão, e os seis volumes de Genealogia Paranaense, de Francisco Negrão.
A pesquisa sobre as origens de sua família tem sido o pretexto ideal para conhecer melhor a história local, paixão de influência direta de seu pai, Herbert Munhoz van Erven, poeta e autor das biografias de Lysimaco Ferreira da Costa e Júlia Wanderley. Na narração da história de seus familiares, Domingos afirma assumir um recuo crítico. Em relação ao texto de sua autoria sobre Caetano José Munhoz, ele é enfático. ''Procurei tratá-lo como um personagem de relativa importância histórica e não como meu trisavô.''
CURIOSIDADES
Anúncios curiosos publicados no primeiro jornal do Estado, O Dezenove de Dezembro, e compilados pelo pesquisador Carlos Alberto Brantes:
"No Engenho do fallecido Evaristo, há dous colxões de pennas para vender-se." (15 de abril de 1854)
"MANOEL MARTINS CARNEIRO declara que assignará d'ora avante MANOEL MARTINS DE ARAUJO FILHO." (28 de novembro de 1855)
"Quem perdeu um sacco de algodãosinho com batatas inglesas, procure na rua do Pateo No. 38." (19 de dezembro de 1855)
"Na rua das Flores No. 31, alugão-se cavallos para passeios dentro da cidade." (30 de janeiro de 1856)
"FRANCISCO CAETANO DE SOUZA, segue para o Rio de Janeiro e pretende voltar se o cholera permitir." (06 de fevereiro de 1856)
"Na rua dos Alemães No. 8 vende-se leite a 200 réis o quartilho, podendo as pessoas que apreciam tomal-o quente, ao pé da vaca, comparecerem das 7 ás 8 horas da manhã, que o terão pelo mesmo preço, alem de encontrarem rede para descançar e canários do reino para ouvir cantar." (10 de setembro de 1856)
"Roga-se á pessoa que na última noite de espetáculo da sociedade Recreio Curitybana - levou do theatro cinco cadeiras, haja de mandar entregar a seu dono, afim de não passar pelo desgosto de ser obrigado pela autoridade competente." (28 de janeiro de 1857)
"Roga-se ao Snr. fiscal, queira dar um passeio até a Rua Direita afim de dar providências serias sobre certos gatos que ali acham-se estufados." (16 de dezembro de 1857)
BPP EM NÚMEROS
Veja alguns números da Divisão de Documentação Paranaense da BPP:
l Área utilizada pela divisão: 1260 metros quadrados
l Área total do prédio: 8258 metros quadrados
l Acervo
53.536 livros de 20.972 diferentes títulos
4.884 pastas de recortes de periódicos, separadas por nomes de pessoas, cidades e temas
4.109 materiais iconográficos (entre cartazes, cartões postais e fotografias)
2.331 títulos de revistas, o que inclui listas telefônicas, revistas técnicas e de associações
1.540 mapas
800 títulos de jornais entre Capital e interior
l Consultas (2008)
137.835 exemplares de jornal (em papel)
11.062 livros
10.854 rolos de microfilmes
8.267 revistas
5.710 pastas de recortes
216 mapas


