Garçom serve alegria há 50 anos
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sábado, 18 de setembro de 2004
Fernando Rocha Faro<br>Reportagem Local 
Para o garçom Nelson Faneco, 65 anos, a identidade do freguês é o que menos importa na hora do atendimento. Ele ensina que todos merecem a mesma dedicação e, se for o caso, alegria e descontração. Com quase cinco décadas de profissão, o londrinense tem experiência suficiente para dar o exemplo. No currículo, além dos anônimos, contabiliza famosos como Nelson Gonçalves, Chacrinha e Mamonas Assassinas e outros frequentadores célebres do Restaurante Rodeio, a exemplo do Hotel Bourbon, um dos estabelecimentos mais tradicionais da Área Central de Londrina.
Nos bares e restaurantes da cidade, Faneco acompanhou o desenvolvimento de Londrina, principalmente da fase áurea do café, quando o dinheiro não era tão escasso e a vida noturna, mais movimentada. Um dos pontos de maior movimento, os bares abrigavam os jogos de baralho dos fazendeiros, que aproveitavam também para consumir café e os famosos sanduíches nas madrugadas londrinense. Um dos estabelecimentos mais tradicionais foi o Bar Lavoura, localizado na frente da antiga Estação Rodoviária, hoje Museu Histórico.
Foi no Lavoura que Faneco iniciou sua carreira de garçom, em 1956. Com memória afiada, ele enumera com facilidade o cardápio mais procurado pelos boêmios londrinenses da época. ''Os sanduíches preferidos eram o beirute, marta rocha e ambulante. Todos faziam bastante sucesso'', conta. O suco de laranja ''maracanã'' era o acompanhamento predileto. ''Eram os bons da boca, os bons do dinheiro que faziam lanche lá'', recorda. Com o dinheiro farto, a situação para os garçons também era melhor, com as gorjetas mais constantes e generosas.
Outros estabelecimentos comerciais também reuniam boa clientela nos anos 1950. Ponteio, Canecão e Copom foram dois dos mais movimentados restaurantes noturnos, que serviam refeições, bebidas e promoviam animados bailes dançantes. ''A vida noturna de antes, sem dúvida, era maior. O pessoal ia para comer e dançar'', destaca com saudade. Após uma passagem pelo Bar Bossa Nova e um período malsucedido como motorista de táxi (abandonado por força de um acidente de trânsito), Nelson Faneco retomou a carreira de garçom no então Bar Rodeio, em 1969.
Poucos anos depois, o estabelecimento adotou o serviço a la carte, passou a servir refeições e chamar Restaurante Rodeio, onde trabalha até hoje. Pela proximidade com o Hotel Bourbon, preferido dos artistas nas visitas a Londrina, o Rodeio recebeu diversos clientes ilustres, ''sempre atendidos com a mesma descontração pela equipe de garçons, incluindo Nelson Faneco. A presença do apresentador Chacrinha deixou uma história inusitada, contada por Faneco com um sorriso sincero no rosto.
''Para comer, coitado, como tinha aquele barrigão grande, o Chacrinha colocava uma toalha como guardanapo para não labuzar a frente toda. E era toalha de mesa mesmo'', diverte-se.
Experiente, Nelson Faneco considera o relacionamento com o cliente uma arte. Segundo ele, a receita é simples: muita discrição e seguir o ''manual'' do bom-senso em que o comportamento do garçom tem que corresponder à expectativa do freguês. ''Se ele faz uma brincadeira, você aproveita e também brinca, afinal o clima de descontração está criado. Mas se o cliente for mais reservado, o garçom não deve entrar no meio'', ensina. ''O objetivo do garçom é deixar o cliente contente, seja ele quem for'', acrescenta.


