Os dois ímãs de Amsterdã na lateral da Electrolux de Gilson de Araújo, 48, podem lograr o observador desatento. Gilson não passou apenas pela capital holandesa. Morou e teve a sua geladeira no Vietnã, Holanda e Estados Unidos. Isso nas fases em que viveu em Nova York e Santa Bárbara. Na época em que morava e rodava o país em uma van, ele não tinha uma. Do tempo em que ficou no Sudão e Israel, nada de geladeira em casa. "Em Israel morei numa tenda em um campo nudista, ninguém tinha geladeira lá."
No veleiro em que viajou pela costa africana, a geladeira estava mais para freezer e levava carne congelada. Também morou no Egito, França e Grécia. "Meu grande desejo é viver em outros países", conta Gilson desde o seu apartamento em Curitiba. Retornou a cidade em 2006 e por três anos conviveu com uma geladeira que não funcionava. "Ela deu um defeitozinho, mas não me incomodei de trocar", recorda Gilson, formado em engenharia civil.
Como não tinha nada para guardar, conviveu numa boa com a ausência do eletrodoméstico - até recentemente. Gilson faz natação de segunda a sexta às 10 horas da manhã. Começou a ficar mal de saúde, mas nem suspeitou que fosse pelas 18 horas que ficava sem comer - do jantar, às 19 horas, ao almoço, sempre na casa do irmão Gilberto a seis quadras dali. "Eu mudei muito", diz. E no meio da trajetória perdeu o costume de tomar café da manhã.
Foi um médico que lhe sugeriu a mudança na dieta. Assim, por fim, há três meses adquiriu a Electrolux - a antiga, estragada, deu de presente. "Comecei a comprar pão e peito de peru e precisei de uma geladeira", explica. Seu sanduíche favorito é com pão integral, queijo branco, peito de peru, alface e tomate. Dos ingredientes, só não encontramos os últimos dois na geladeira de Gilson. Mas, ele diz, foi uma exceção. "Salada sempre tem", ele completa.
O eletrodoméstico também o permitiu ter ovos em casa. "Ovo orgânico, por favor", ele ressalta, em nome da saúde. O chocolate Bitter, da Polônia, vai ficar de lado - Gilson gosta de amargo, mas conta que esse é muito ruim. O sachê de mostarda está ali desde que a Electrolux chegou, há três meses. Ainda a acompanham a cachaça Elisa, sugestão de um vizinho, e duas vodcas - ainda que essas, Gilson esclarece, não lhe apetecem.
Enquanto inicia um projeto que envolve créditos de carbono e o aquecimento global, ele sonha com a Turquia. "O encontro entre a civilização europeia e a asiática." Gilson, não deixe de mandar notícias de sua geladeira turca.

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