A Consul 200 da casa de Marcell Boareto, 25, aponta os números 37 05 17 35 14 27 em um papel de um biscoito da sorte. No caso de alguém ganhar a Mega-Sena com eles, sugiro apenas que agradeça ao personagem da coluna nesta semana. Em cima de sua geladeira há dois pinguins: o magro representa o próprio Marcell e o gordo, Alex, companheiro de apartamento. "Que não é gordo, mas mais alto que eu", pondera. Karol, estudante de rádio e tevê, divide o espaço com eles sendo a única da casa que não tem uma banda.
Em um papel amarelo há um cronograma para a compra dos produtos de limpeza. "Eu e o Alex somos metódicos e chatos", conta Marcell, que já cumpriu sua cota de água, papel higiênico e cera. Ele e Karol são os próximos a adquirir os itens detergente, fósforo e sabão em pó, enquanto água sanitária e desinfetante ainda não foram marcados por ninguém. A lista já foi digital, no Google Docs, mas o trio se deu conta que a versão física era a mais prática. "Era nerd demais", diz. "Aqui na geladeira é mais rápido e eficaz."
O apartamento no Centro é a sexta parada de Marcell desde que chegou a Curitiba, em 2001. Veio de sua cidade natal, São Jorge do Oeste, e tinha 18 anos. Era fã de Silver Chair. "Quando era adolescente. Mas me decepcionei bastante com o último disco." Restou um ímã, na porta da geladeira, que mostra o desenho feito por um amigo sobre o nome da banda. Outro, que ilustra um rádio antigo, ele ganhou na reinauguração do James, bar em que sua banda, o Delta Cockers (www.myspace.com/deltacockers), se apresentou na última quinta-feira ao lado do Rosie and Me, em que Alex, o colega de apartamento, toca sintetizador e canta. Marcell vai de violão, mas também solta a voz.
Prestes a se formar em design de móveis, trabalha como freela em projetos de design - na semana passada teve de desmarcar a primeira tentativa de entrevista da FOLHA devido a uma maratona de 24 horas para concluir a ilustração de um storyboard de um comercial. Seu projeto de conclusão de curso discute o modo como a escola Bauhaus e o Construtivismo Russo influenciaram o design de hoje.
Marcell divide com o amigo e personagem da semana passada, Sérgio, da stella-viva, o histórico de ter possuído uma geladeira cujo gás foi embora. "Explodiu o CFC dela", recorda, com certa saudade de sua Prosdócimo anos 70. Diferente de Sérgio, não foi com uma tesoura ao tentar descongelar com mais pressa. Simplesmente estragou. "Ficou um cheiro horrível", lembra. Ligou para Prefeitura e como ninguém veio buscar deixou na frente do apartamento. Pouco depois, no final de fevereiro, mudou-se para o atual. Passou lá, no antigo, noutro dia e sua Prosdócimo já tinha sido levada adiante.
A sua atual ainda carrega na porta alguns itens peculiares. "Clínica espiritual Estrela da Manhã", panfleto sobre sorte tarô e afins, além de outros, propositadamente kitsch, como um ímã de um sol. "Comprei por cinquenta centavos, é muito feio", diz. "Já dividi apartamento com uma menina que era muito chata e não deixava eu colocar o sol na geladeira." A turma de agora, ele diz, é muito bacana. E o sol está lá, reluzente, na porta da Consul 200.
* A coluna Geladeira desta semana sugere a leitura de A extraordinária aventura vivida por Vladimir Maiakóvski no verão na datcha, em que poeta russo discorre sobre o sol.

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