A segunda batida de tesoura no congelador da Consul 230 fez ''pam'', depois ''tss...''. A intenção de Sérgio Monteiro Freire, 27, era boa. Martelo e tesoura, talvez uma dupla prática para ajudar a descongelar mais depressa. Gás vazou, geladeira estragou. Orçamento em mãos, Sérgio pagou os R$ 300 ao companheiro de casa e dono do eletrodoméstico. ''Nunca consertei. Comprei um pedal'', resume Fernando Rischbieter, 22. Junto com Júlio Epifany, 36, e Rafael Costa, 22, eles, que moram na mesma casa, antiga e confortável, formam a banda stella-viva.
Enquanto a 230 continua afastada num quarto dos fundos, a Consul 240, de Sérgio, assumiu o posto na cozinha da casa - que também é a residência de Rafael Bettega, publicitário, além de ser o lar para o estúdio Macchina, adjunto à sala de ensaios que recebe semanalmente bandas como Wandula, Excelsior e Bad Folks. Em cima da consul, uma pequena caixinha serve de convite para a contribuição dos que passam por ali. No momento, só tem moedas, mas dizem os meninos que já teve gente que ajudou com nota de R$ 20.
Sérgio nasceu em Iowa, nos EUA, mas cresceu em Teresina (PI). Júlio veio de Pernambuco e o restante da turma viveu a juventude em Santa Catarina. Logo, não é à toa que a beterraba em conserva hemmer seja de Blumenau. ''É sensacional. A minha cidade tem as melhores conservas'', explica Fernando, responsável pela presença do invólucro na geladeira. A reportagem da FOLHA se deparou com prateleiras bem organizadas - responsabilidade da diarista, segundo anotou Sérgio - e praticamente não encontrou alimentos estragados no eletrodoméstico dividido pelos jovens. ''Aprendemos com a experiência do frigobar'', lembra Fernando, guitarra, flauta, violão, teclado e vocal da banda.
Certa vez, depois de uma faxina, a Consul 120 (compacta) da sala ficou duas semanas desligada da tomada. Ninguém assume a responsabilidade pelo descuido. Queijo mussarela virou gorgonzola, batata, suco e o resultado de um ovo quebrado fica para a imaginação do leitor. Costa, o batera, reuniu as provas e encontrou um culpado: Sérgio. ''O leite que estragou era semidesnatado. Só compro leite desnatado'', defende-se o guitarrista, tecladista, saxofonista e cantor. Se nenhum deles compra leite dos tipos A e B, o caso entra para o hall das histórias inexplicáveis que envolvem a casa.
Ninguém sabe, por exemplo, como dois ovos foram parar dentro do armário - esquecidos, resultaram em cheiro que remete a rato morto segundo relato de um deles. O sumiço de cadeiras é apenas mais um desses causos exóticos. As energias, Fernando lembra, já melhoraram bastante - quando chegaram, a casa estava repleta das marcas da turma que invadiu a residência e morava por ali.
Já a relação com a música, repleta de boas vibrações, está desde a porta da consul. ''É bom demais partir com saudade'', escreveu em uma folha de caderno Rapha, da banda recifense Nuda, que passou por ali no dia oito de março. A bandeira de Pernambuco colada ao lado não veio pelas mãos do tal Rapha nem mesmo pelas de Júlio, o batera natural do estado. ''Foi um amigo gaúcho que dividia apartamento comigo na Osório. Gostava e colou'', revela Sérgio.
A foto de July, um poodle acompanhada de lacinhos verdes, azuis e amarelos, está segura por um ímã da guiness, cerveja irlandesa. ''Isso foi na Copa de 1998'', comenta Costa, o baixista. ''Deixamos aí meio de sacanagem, para dar um ar de geladeira de família.'' July, a Juliet, aos 15 anos, continua vivendo em Blumenau. Enquanto a turma seguir morando junto, afirmam, pelas palavras de Fernando, vão curtir ao máximo. Ao colocar três heinekens recém-compradas na geladeira, este afirmou: ''Vamos enfeitar um pouco''. Elas seriam sorvidas logo depois, acompanhadas de spaguetti com molho de tomate, beringela e champignons. Um prato de Sérgio, autor da pós-culinária na opinião dos colegas de casa e banda. As vezes ele erra. Em outras acerta.

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