A cozinha de Paola Laghi, 41, tem trilha sonora. Carne, seja no forno ou churrasqueira, vai com Stones. Risoto é tema para Led Zeppelin. Massas, saladas e coisas rápidas saem com a batida latina de Manu Chao ou o folk de Gogol Bordello. "É a minha vida. Cozinhar deixou de ser um hobby; hoje é um vício", conta. Brastemp duplex de portas abertas, lá está a torta de damasco com creme de baunilha, chantili e crocante feita para o aniversário do filho Rafael, que completou 17 anos ontem. "Ela cozinha bem", confidencia o jovem. "Mas o torteil que eu pedi (com espinafre, ricota e parmesão) ela não fez."
Rafael abre a porta e pega uma das garrafas d’água. "Ela tem que ter a dela", diz. Água, para Paola, tem peso. E a sua escolha é a marca que vem com o líquido mais leve. A organização, que impressiona este repórter, Paola logo explica que não é cotidiana. "É porque você ia pintar aí", diz. A surpresa da dona da casa é que na coluna ia sair até foto.
Chegamos à Paola através da indicação do personagem da semana passada, Small, que é designer de embalagens e também faz objetos com papel reciclável - ela tem em casa uma cadeira, luminária e a adega feitas por ele. Paola sofre pela pronúncia errada do próprio nome. O responsável pelos dois licores presentes na geladeira - um de cúrcuma, anis estrelado, cravo e cardamomo; o outro de ovos - é seu pai, o italiano Pieiro, que batizou a filha com a grafia italiana. "A pronúncia correta é ‘Paula’, mas todo mundo erra", diz.
No congelador o pacote com chipa, um delicioso pão de queijo paraguaio, conta um pouco de sua vida regressa. Trouxe em janeiro de Amambaí (MS), que faz fronteira com o país vizinho. É a cidade em que passou a maior parte de sua vida e onde vivem Piero e Izay. "Nunca vi uma briga de meus pais que não fosse por causa de comida, do ponto da massa. Cozinha, na minha casa, sempre foi ponto de encontro e a comida sempre esteve em primeiro plano."
A mandioca que está no congelador logo vai se juntar com a carne seca e virar escondidinho. O cardápio da casa, que inclui risoto de funghi, muita massa e carne, vai alcançar outros ares. Paola pretende abrir em 2010 uma cozinha, um pequeno restaurante. "Gosto da cozinha antiga, como a da minha avó, que era essa cozinheira italiana de mão cheia."
Paola olha com dificuldade para o hambúrguer de frango no congelador comprado a pedido do filho. Não é fã de fast-food e só cozinha com azeite de oliva e a baixas temperaturas. Gosta de tudo fresquinho, e prefere fazer várias compras menores na semana do que uma grande. Pergunto o que faz, então, o loro dentro da Brastemp. "Ah, isso é mania mesmo. Estou sempre abrindo a geladeira. Assim é mais prático."

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