G E L A D E I R A
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 24 de fevereiro de 2009
Rafael Urban<br> Equipe da Folha 
"Nada de pegar uvas, Gabriel, está na hora do almoço." O aviso da mãe, Márcia, passa batido. Do alto de seus 90 centímetros de altura, ele é rápido. Se não fosse o pai, Junior, contar, este repórter não teria notado que da geladeira aberta o pequeno surrupiou um par de uvas rubi. Os cachos ficam estrategicamente posicionados de modo a facilitar o roubo. "Queremos influenciar a alimentação deles", explica o pai. Gabriel tem dois anos e três meses; o irmão, Lucas, dez meses, 70 centímetros de altura e ainda não alcança as uvas, mas gosta de xeretar a Brastemp Duplex.
Na porta de cima, a do congelador, o registro de uma aposta do casal está preso por dois ímãs. "Eu, Altair Q. Turbay Jr., entro em acordo com a sra. minha esposa, Márcia Ribeiro Bolcato Turbay, que perderei 20 kg no mínimo até o dia 31 de dezembro de 2008." O texto ainda registra que em agosto, data em que aposta começou a valer, Junior tinha 122,2 kg. "Ele queria jogar o papel fora, mas tá aí para ele aprender a pagar a aposta. Antes, quando perdia, nunca pagava", lembra a esposa Márcia, 31. Junior, 34, perdeu oito quilos - já recuperou dois - e está devendo sua parte no acordo: um agasalho de marca acompanhado de camiseta e tênis.
Promete pagar e renovar a aposta, diminuindo 20 kg de seu peso até o final do ano. "Foi uma frustração mais light, pois estava com muitas. E com muito estresse no trabalho. 2008 foi um ano difícil", explica. Aos 20 anos, pesava 80 kg. A febre reumática debilitou a saúde e o deixou longe dos esportes - aos quais, agora, volta aos poucos. Há um mês está de emprego novo. Fisioterapeuta de formação, trabalhou nos últimos dois anos com gestão de saúde para o município de Araucária. Atualmente é consultor em segurança empresarial - em que lida com fraudes e redução de perdas.
Quanto à geladeira, ele ajuda a não bagunçar, mas quem arruma mesmo é a esposa. As garrafas com água são cinco. "É que gosto de tomar no bico." Toma diretamente da que tem o dizer "água para passarinho beber" e diverte-se ao falar da frase. Outra é para Márcia, uma terceira para fazer suco, uma quarta para visitas - da qual ele oferece água para o repórter. A quinta, por fim, é a passagem do hábito: uma pequena, de 300 ml, da qual Gabriel, o jovem fã de uvas, dá seus primeiros goles longe da mamadeira - que ainda usa no café da manhã.
No congelador, três potes de sorvete (um de abacate, o favorito de Junior), e um solitário picolé de limão. Foi-se o tempo em que ali havia mais de 15. "É mania. Agora tomamos bastante iogurte." Consciente de que hábitos passam para os filhos, Junior abandonou a rotina da época de solteiro de comer fast food e diz que a família tem se alimentado de maneira mais equilibrada - os ímãs na porta vão da Happy Burger à Integralis, loja de produtos naturais.
O veterinário Stefan, personagem da semana passada desta coluna, o chama de Junior tal como os amigos e familiares. Altair ficou nos tempos de colégio - por culpa da chamada - e nos anos em que trabalhou no serviço público, em que o crachá destacava o primeiro nome. Conheceu Stefan, o "vetê", na especialização em Traumato-ortopedia e Medicina Desportiva. No segundo dia de aula foram assistir juntos a um jogo do Flamengo na casa de Altair, pai de Junior. Foi o Altair pai que não quis que ele fosse publicitário ou cineasta. Hoje, Junior sonha em fazer cursos de cinema. "A minha paixão. Me interesso especialmente por direção de fotografia", conta.
* O título da coluna Geladeira desta semana homenageia o escritor João Ubaldo Ribeiro, autor do livro "Arte e ciência de roubar galinha".


