G E L A D E I R A
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
Rafael Urban<BR> Equipe da Folha 
Perdi as contas ao chegar no quinto ímã da mesma pizzaria na geladeira de Friedemann Ingomar Theodoro Holzinger, 73, personagem desta semana da coluna Geladeira. Ele explica. "Com tanta coisa, não se sabe o que se tem. É mais fácil grudar mais um do que procurar." Ingomar, ou Ingo, como é chamado pelos amigos, mora no mesmo prédio e a quatro andares de distância de Nelly e Fernando, que contaram a sua história na semana passada. Veio deles a sugestão de conhecermos o vizinho e seu eletrodoméstico - que por sua vez indicará o da coluna de número três.
Friedemann é uma homenagem ao primeiro filho de Johann Sebastian Bach. Ingomar, um herói germânico. Theodoro, o nome do avô, austríaco. E Holzinger, bem esse é o sobrenome. "A pessoa vive em função do nome", ensina. Trata da sua vida pessoal: por oito anos se viu obrigado a aprender violino, instrumento que tocava o filho do músico famoso, enquanto queria o piano. Logo criou aversão. "O gesto humilha muito mais do que a dor", refere-se à professora, severa, que, ao erro, batia em sua mão com o arco.
Ingomar não virou músico. É representante de vendas de produtos de panificação e de uma empresa de ultracongelamento. Coisa para guardar alimentos a menos 40. Mas, e é o próprio quem diz, não justifica substituir o freezer de casa; o equipamento que vende custa entre R$ 30 mil e R$ 500 mil. Em um vidro de café no freezer de Ingomar está um quilo de crem, raiz forte. Ele chega a comprar cinco quilos do produto, que descreve como um complemento ideal para todo tipo de carne. A carne moída é descongelada na geladeira, para manter as qualidades do produto. Se tivesse pressa, ele avisa, usaria o micro-ondas.
A Brastemp 440 litros está com ele há 22 anos. A certeza tem pela idade dos filhos, para quem os ovos - contei 18 - são um quebra-galho tremendo. "O seguinte, tenho dois meninos aqui. Arroz, ovo frito e feijão é um prato muito bom e prático." O miojo não está na geladeira, mas a família usa muito. Ele divide o apartamento e o eletrodoméstico com os gêmeos de 21 anos Igor e Henrique. Este último batizado em homenagem ao pai de Ingomar, Heinrich. O champanhe, gelando, aguarda o momento certo. "A visita de pessoa especial ou dá um estalo e a gente cria a ocasião."
Para a Coca-cola virar Cuba Libre depende de inspiração. "É um drink que gosto muito. Está démodé, fora de circulação." E completa. "Há 30 anos, Hi-fi e Cuba Libre eram top de linha." Aos que desejam uma bebida gelada, quatro canecas de vidro à disposição no congelador adjunto. "Para dar um reforço no gelado", explica. Na porta, além dos ímãs, dicas de alimentos a serem evitados, lista de permitido/proibido em relação à gastrite - Ingomar teve um problema do gênero - e uma folha de lembretes sobre a diabete. "Só tá aí para não abusar tanto do doce."
Ele reconhece. "Muita coisa já tá superada e tem que fazer uma reciclagem." Ingomar se refere aos ímãs. Um deles, de um ateliê de costura. "Isso é um hábito que está em desuso", opina o dono da geladeira. "Hoje a molecada não faz mais isso, só compra roupa pronta. Eu uso. Acho que é uma questão de bom senso e se faz economia." Se já pensou em trocar de geladeira? Sim. "Se estragar, não vou consertar. Quero comprar uma frost free."


