A electrolux de Rafael Martins, 34, lembra em um aspecto a geladeira de minha tia Nuca. A dela guarda uma série de potes vazios, pois saberá onde encontrá-los quando precisar deles. A de Rafael tem um pequenino isopor devidamente vazio no congelador. Sobre a geladeira, uma lata da Confeitaria Colombo, do Rio de Janeiro. "Viajo pouco, é mais para tocar mesmo", conta. Um dos ímãs reproduz a imagem da capa do CD Coração Pedra de Gelo, da paulista Os Telepatas.
Rafael nasceu em BH mas com um ano foi para São Paulo, sua cidade de moleque. Veio aportar em Curitiba em 1991. Por aqui já tocou em diversas bandas, várias delas bem ruins na avaliação do próprio. Hoje, divide o palco com uma galera de peso. Desde 2003 é o guitarrista do Wandula, e desde o ano passado toca com Bad Folks e ruído/mm. O ganha pão principal, porém, ainda é o jornalismo - ele já foi, inclusive, editor do Bonde. E como não almoça em casa, sua geladeira não é repleta. Mas tem bastante coisa.
A manteiga, aberta, está ali há dois meses e vai continuar por mais um tempo. "Não como manteiga", ele explica. Resquício de um casamento de cinco anos encerrado, justamente, há dois meses. As geleias, localizadas na prateleira superior, ele promete devolver para a ex-mulher, Gabriela. Mais abaixo fica o repolho roxo em conserva que faz parte de sua dieta.
O roxo, por sinal, o confundiu. Acabou comprando beterraba em conserva por engano, o que deverá ficar ali por um tempo razoável. "Na geladeira as coisas são meio que esquecidas dentro e fora." Refere-se também aos ímãs mais diversos, da lavanderia que utiliza para lavar edredons àquela que já não usa mais. O que remete a Portugal foi presente de sua mãe. Rafael morou em Londres e visitou diversos países, mas não esteve com os lusitanos.
O músico já teve uma frigidaire, hoje abastecida com os quitutes mais deliciosos na casa de Josi e Felipe, personagens da coluna na semana passada. Muito conservada, a geladeira pertencia aos seus pais, notavelmente cuidadosos. O apelido do eletrodoméstico era "frigobar", pois não ficava na cozinha. Guardou de equipamentos de música a jogos de tabuleiro - estes no congelador. "Ficava com pena de encher de lixo", diz. "Agora está sendo usada como se deve."
Rafael gostaria de, um dia, largar a labuta do jornalismo para dedicar-se exclusivamente à música. "Uma das vantagens de ficar velho é aprender bem a fazer o que você faz", diz. Conta que hoje escreve e toca melhor. Theo Marques, o fotógrafo da FOLHA responsável pela imagem que ilustra a coluna de hoje, confirma: o músico tem estilo. Hoje à noite, por sinal, Rafael toca baixo no lançamento do 2º CD de Caio Marques (irmão do Theo) no James. Amanhã, no Jockers, empunha guitarra em show que celebra a fase mística de Jorge Ben.

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