Ao contrário de outras culturas antigas, sempre em luta para preservar sua memória, o gauchismo tem herdeiros de sobra. A adesão dos mais novos, definitivamente, não é um problema para os CTGs. Principalmente no interior, onde as opções de lazer são mais limitadas.
''Ou você vai ao CTG, ou fica em casa mexendo no computador'', diz o bancário Rodrigo Guidolin, 25, vindo de Medianeira. Filiado ao Querência, ele namora há seis meses a estudante Manoela Zontea, 21. Os dois se conheceram no centro, onde atuam como ''primeiro peão'' e ''primeira prenda''.
Peões e prendas são os homens e mulheres do grupo, sendo que os ''primeiros'' representam a casa nos concursos disputados entre CTGs. ''É uma rivalidade sadia. Todos se tratam com muito respeito, mas no tablado (onde se dança) cada um quer ser o melhor'', afirma Guidolin.
Os peões devem fazer tranças com couro, dar nós em lenços, laçar novilhos, encilhar e limpar cavalos. A competição entre prendas parece ser mais complicada. Tudo começa com a ''prova da vivência'', em que a candidata deve apresentar uma pasta com documentos que comprovem seu envolvimento com o tradicionalismo (como fotos antigas e certificados de participação em seminários).
Em seguida, vem a avaliação cultural, com perguntas sobre História, Geografia e folclore, além de uma redação. Depois, na prova artística, as moças dançam, cantam, declamam poesias e tocam instrumentos. Por fim, são testados os dotes culinários e manuais das concorrentes.
Longe dos pais, Guidolin diz que encontrou no Querência o ambiente familiar do qual sentia falta desde a mudança para Curitiba. ''Quando cheguei aqui, até passei um tempo sem ir a um CTG. Mas simplesmente não consegui ficar longe'', confessa.
O peão ainda conta que escreve poemas e ''causos'' com um toque de atualidade. Como a história do gaúcho que não entende por que o filho fica ''batucando na frente da televisão'' (quando, na verdade, ele está digitando no teclado do computador). ''Mesmo de leve, tem de haver alguma mudança. Porque uma cultura sem inovação não cresce'', reflete. (O.G.)

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