Futebol com pernas depiladas
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 30 de outubro de 1997
Simone Mattos 
Fotos: Albari Rosa
Meninas com idades entre 11 e 17 anos treinam na escolinha do Coritiba e sonham com o profissionalismo. Na foto de cima, a lateral direito Roberta Menezes Guimarães
Ela é bonita, vaidosa e tem namorado. Nada disso impede, entretanto, que a estudante Roberta Menezes Guimarães, 16 anos, jogue como lateral direito no time de futebol feminino do Coritiba. Ela e outras 24 garotas, com idades entre 11 e 17 anos, todas apaixonadas por futebol, vestem e suam a camisa do Coxa, sonhando com o profissionalismo.
Uma última olhadinha no espelho antes de retirar as bijuterias, amarrar as chuteiras e entrar em campo é inevitável. Segundo o treinador da equipe, Paulo Sérgio Aliski, as únicas recomendações diferenciadas para os times femininos são no sentido de prender o cabelo, evitar bijuterias e procurar se proteger bem com as caneleiras. Por serem iniciantes elas estão mais suscetíveis aos choques, explica.
Na opinião das meninas, no entanto, elas estão em desvantagem, pois eles treinam desde pequenos, já nascem sabendo futebol, e nós estamos apenas começando, explica Roberta. Há seis meses ela trocou as quadras de basquete pelo campo de futebol e confessa que ainda enfrenta o preconceito da família e da sociedade.
Os meus pais não queriam que eu treinasse, pois acham que é esporte para homem, e mesmo o meu namorado, que joga no time profissional do Coxa, acha que o futebol não é para mim, que é coisa de homem, afirma.
O treinador das meninas discorda e afirma que o preconceito está diminuindo, principalmente depois das Olimpíadas de Atlanta, quando o futebol feminino brasileiro ficou em quarto lugar. Ele comentou que vários namorados tem acompanhado as atletas nos treinos, dando incentivo e apoio. O futebol está começando a ser encarado como um esporte normal para elas, como o vôlei ou a natação.
Procurei o futebol porque amo este esporte, é a minha paixão, afirma a goleira Kristina Menezes Gomes
Prova disto, segundo Aliski, é que as garotas já estão começando a montar times para bater bola nos horários de folga, em quadras e campos alugados, exatamente como os homens. Tenho amigas e alunas que estão fazendo isto, conta ele.
Preconceitos à parte, as meninas estão se dedicando ao esporte porque amam o futebol, apenas isto. A opinião é da goleira do time, Kristina Menezes Gomes, 17 anos. Depois de treinar vôlei e handebol, ela mudou definitivamente para o futebol e confessa que fez isto movida pela paixão.
Eu amo este esporte, há dois anos que frequento os estádios como torcedora e acompanho todos os jogos, conta. Kristina é curitibana, estudante de 2º grau e mora com a família.
Ela conta que também já sofreu com o preconceito da sociedade. Tive um namorado que, quando eu me machucava no jogo, ele dizia que eu tinha mais é que ficar roxa, para aprender a não jogar esporte de homem, conta a goleira.
Seu ídolo é o jogador Denílson, do São Paulo, mas Kristina não nega que admira a modelo e jogadora Susana Werner, ídolo da grande maioria das meninas que treinam futebol. Ela joga bem, é super bonita e ainda namora com o Ronaldinho, comentou.
Os homens estão começando a se acostumar com a idéia das mulheres jogarem futebol, acredita a atleta Tatiana Miranda
Embora sonhe com o profissionalismo, a goleira explica que não nutre esperanças em ganhar a vida com o futebol. Tenho apenas 1m57 de altura e sei que isto torna praticamente impossível me transformar numa jogadora profissional, afirma.
Por este motivo, no próximo ano Kristina irá prestar vestibular para Medicina e Artes Cênicas, mantendo o futebol apenas como um hobby.


