Frustração não significa falta de informação
O alto índice de frustração entre os jovens que já iniciaram a atividade sexual não reflete, necessariamente, falta de informação sobre o tema. Pelo contrário: para o médico Walter Marcondes, o excesso de informação é justamente um dos fatores de maior influência sobre o adolescente que decide transar. Aliado ao bombardeio promovido pela mídia, estão a pressão de amigos e a curiosidade quanto ao sexo.
São estes três fatores que hoje, levariam o jovem a transar. A importância da orientação adequada se destaca neste contexto, já que, segundo a psicóloga e professora da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Mary Neide Figueiró, informação pode ser obtida em qualquer lugar e está sujeita à interpretação.
Casos extremos de iniciação sexual precoce e socialmente degenerativa foram citados pela coordenadora de Ciência e Biologia do Núcleo Regional de Educação (NRE), Cláudia da Silva Machado. Segundo a professora, duas histórias em especial chamaram a atenção dos profissionais do núcleo. ''Certa vez, em uma das escolas estaduais de Londrina, um dos inspetores percebeu uma movimentação estranha atrás de uma das árvores da área de lazer. Quando ele chegou ao local para verificar, descobriu uma fila de garotos, de idades variadas, aguardando uma ''sessão'' de sexo oral, praticado por uma menina de 14 anos. Uma menina de outra escola marcava encontros com garotos em uma construção vizinha ao colégio para se relacionar com eles'', descreve Cláudia.
Nos dois casos, a professora cita a falta de estrutura familiar como a principal causa para o envolvimento das garotas com o sexo. Afinal, não se trata somente de relações sexuais, mas sim de comportamentos altamente auto-destrutivos, provavelmente gerados por falta de apoio dos pais, violência doméstica e, principalmente, falta de orientação sobre o tema.
Para Marcondes, o simples ato de proibir uma relação não adiantaria muita coisa. ''É um comportamento que vai colaborar somente com o impedimento do jovem de se proteger contra a gravidez ou DSTs''.
A incoerência, segundo o hebiatra, revela-se de forma simples. ''A decisão pela transa já está tomada e nada vai mudá-la. Por outro lado, o jovem tem na cabeça a noção de erro, incutida pelos pais, e a de pecado, imposta pela Igreja. Como ele poderia se dirigir a um posto de saúde para pegar camisinhas se, desta forma, estaria se preparando para cometer um erro e para pecar?''. Como números colocados em uma equação, a teoria do médico foi prontamente reforçada pelos jovens ouvidos pela Folha. Eles foram unânimes em dizer que nunca iriam até um posto de saúde atrás de prevenção.
A avaliação do médico vem acompanhada de uma constatação positiva acerca do grau de conhecimento que os adolescentes têm do risco que correm com a prática de sexo. Segundo Marcondes, os jovens mostram, de uma forma geral, um bom conhecimento destes riscos, bem como dos métodos para evitá-los.
A informação, contudo, somente reforça o perigo gerado pela proibição moral e religiosa. Se os jovens têm informação e não se protegem, é porque justamente não querem se preparar para cometer erros. A preocupação também se restringe ao campo social, já que o maior medo dos adolescentes é de provocar uma gravidez indesejada, e não o de contrair uma doença perigosa. Um caso que serve de exemplo é o do representante comercial Rodrigo Pires de Oliveira, 23 anos.
Noivo de uma adolescente de 15, ele já espera pela chegada do filho. ''Fiz um exame que apontou fertilidade quase nula para mim. Como eu tinha minha noiva como parceira fixa há muito tempo e nós confiávamos um no outro, não vimos necessidade no uso de camisinha'', conta. Como a noiva de Oliveira, outras 70 jovens estão, neste ano, passando por acompanhamento pré-natal no sistema de saúde do município, porque confiaram nos parceiros e não temeram o contágio por DSTs. O número é considerado alto por Marcondes.
Um dos problemas a ser enfrentado para que a orientação ganhe o destaque que merece é onde encontrar os adolescentes. Em casa, os pais já sabem que não podem assumir uma postura censora com os filhos, sob risco de assumir consequências desagradáveis do que simplesmente lidar com a perda da virgindade de um jovem. Mas sexo é falado sempre, em qualquer momento e em qualquer lugar. Por isso, Cláudia, assim como o chefe do NRE, Rony Alves, acreditam que todos, e não somente um professor específico para a disciplina, devem estar preparados para orientar os alunos.
''Sexualidade é um assunto que pode surgir a qualquer momento na sala de aula, e por isso não pode ser reduzida a uma aula'', afirma o chefe do NRE, que já promove palestras para a capacitação de professores, aberta a todos os funcionários da rede estadual de ensino. ''E mais do que falar de métodos contraceptivos e reprodução, os docentes devem ter conhecimento sobre sexualidade propriamente dita, o que envolve prazer, relacionamento, homosexualidade e principalmente, respeito'', destaca o professor.(A.L.)





