Freiras dedicam a vida aos doentes
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terça-feira, 06 de abril de 1999
Lucilia Okamura 
O sonho de infância delas era ser enfermeira. Achavam bonito cuidar dos doentes e acreditam que nasceram com esta vocação. Foi pensando assim que as freiras Rosamaris e Maria Salete (do Instituto Secular das Irmãs de Maria de Schoenstatt) começaram a exercer a atividade. Atuando em Londrina há mais de 50 anos, elas não pensam em parar tão cedo.
Se eu atraso para visitar um doente, ele me pergunta se eu perdi a hora, observa irmã Maria Salete, hoje pertencente à Pastoral do Enfermo da Santa Casa. A figura da freira é tão conhecida pelos corredores e quartos do hospital que os pacientes e seus familiares se queixam quando ficam sem o apoio espiritual que ela costuma levar duas vezes ao dia.
Nascida em Sobradinho (RS), irmã Maria Salete (que, assim como irmã Rosamaris, prefere não falar em idade) chegou em Londrina em maio de 1946 já como freira e disposta a trabalhar na Santa Casa - fundada dois anos antes. Quando eu cheguei, achei que não ia me acostumar nunca, confessa.
Dos velhos tempos, irmã Maria Salete guarda lembranças boas, mas também algumas meio assustadoras. Ela lembra, por exemplo, de pessoas embriagadas que costumavam aparecer na entrada do hospital ou então de uma certa vez que um homem, bastante transtornado, apareceu com uma arma em punho. A situação só se acalmou com a chegada da Polícia.
Dificuldades não faltavam nos primeiros anos de funcionamento do hospital. Tudo ao redor era praticamente mato, pessoas doentes apareciam em massa e não havia lugares suficientes para acomodar os pacientes. A energia elétrica era desligada às 21 horas e a partir daí eram usados somente lampiões de querosene e velas para atender os doentes. Quanto tinha uma cirurgia urgente, era uma correria para avisar o responsável e pedir para não desligar a luz, relata.
Irmã Maria Salete se recorda também das antigas festas de Natal no hospital. As voluntárias sempre juntavam presentes para dar aos pacientes internados. Com velas acesas e cantando canções de Natal, a gente ia passando pelos corredores e distribuindo os presentes. Era muito bonito e alegre, recorda. Irmã Rosamaris nasceu em Ribeirão Claro (Norte Pioneiro) e chegou em Londrina em 1941 para estudar no Colégio Mãe de Deus. Ela ainda não era freira, mas já se juntava às outras irmãs para ajudar no antigo hospital de madeira pertencente à Companhia de Terras Norte do Paraná. Localizado próximo à atual Biblioteca Pública (área central), o hospital tinha um quarto para os pacientes e uma sala de cirurgia. Tudo era muito simples, lembra.
No início, irmã Rosamaris ajudava a levar comida para os enfermos, depois, durante um mês, substituiu uma outra freira e trabalhou como atendente de enfermagem. Aí gostei mais ainda desta profissão, ressalta.
Com a inauguração da Santa Casa, irmã Rosamaris ajudou na mudança e, a partir de 1951, passou a atuar naquele hospital. Levantava cedinho, às 5 horas, e só ia dormir depois da 1 hora, observa. Apesar das dificuldades, ela lembra com carinho da época. Era uma união muito grande entre médicos e o pessoal da enfermagem, trabalhávamos muito em conjunto.
Eu aprendi muito no pronto socorro. Tinha época que estava mais sensível e me estressava, mas logo passava. Não ficava pensando muito nisso porque sempre tinha coisa para fazer e gente para ajudar, relata irmã Rosamaris. Acostumada desde o início a ver pacientes espalhados pelos corredores, ela revela que sempre teve esperanças de ver uma situação melhor para os doentes.
A recompensa do esforço e dedicação eram reconhecidos pelos pacientes que, ao terem alta, faziam questão de dar uma gorjeta. Às vezes a pessoa era muito pobre, mas fazia questão de dar. Se a gente não aceitasse, achava ruim. E ficava contente quando a gente pegava.


