Não bastassem todos os sobressaltos comuns a quem vive na clandestinidade, os 400 mil imigrantes ilegais que residem na França, entre eles um número estimado de três mil brasileiros, acabam de levar mais uma bordoada. O Ministério do Interior da França começou a colocar em prática uma série de medidas severas para combater a imigração ilegal e diz que vai expulsar no mínimo 20 mil por ano. O ano passado 16 mil foram expulsos, e em 2003, outros 11 mil foram reconduzidos à fronteira.
A decisão é uma demonstração clara de que o país, conhecido até então por abrigar exilados do mundo todo, decidiu fechar as portas. Há polícia especializada em todos os departamentos do país, controle incisivo nos aeroportos, dentro dos trens e ônibus que vêm das rotas mais visadas, fiscalização ostensiva aos setores que empregam clandestinos, especialmente a construção civil, interpelação sistemática a suspeitos, averiguação aprofundada dos tais ''mariages blancs'' (casamento de cidadão francês com estrangeiro visando apenas a regularização). Com tudo isso e muito mais o governo francês espera fechar o cerco em cima dos ilegais que cismam em ficar, e também cortar as asas de quem está com idéia de entrar.
Segundo estimativa oficial, uma leva de 60 mil estrangeiros irregulares baixa anualmente na França. Quem tem esperança de que o governo vai partir para regularização em massa, pode descansar. Depois da última legalização, que em 1997 concedeu 90 mil ''titres de séjour'' (documento que autoriza a estada), o país sinaliza que não vai seguir o mesmo exemplo dos vizinhos espanhóis. Numa decisão criticada por muitos dos seus colegas europeus, o primeiro-ministro da Espanha, José Luiz Zapatero, comandou, em tempo recorde, de 7 de fevereiro a 7 de maio, a regularização de 700 mil clandestinos, a maior parte equatorianos e colombianos, e com certeza também teve muito brasileiro beneficiado.
Na França, cuja população é de 60 milhões de habitantes, os estrangeiros são cerca de 10%, mas em algumas cidades onde eles estão mais concentrados, podem chegar a 30% da aglomeração urbana. Os imigrantes, legais e ilegais, ocupam os pequenos e grandes centros. Entretanto, eles são mais visíveis nos chamados ''banlieues'' (periferias) de Paris e de cidades como Marselha, Lyon, Toulousse, Bordeaux, Strasbourg e Lille.
Vinda principalmente do Magreb (Marrocos, Argélia e Tunísia); de ex-colônias e protetorados franceses da África meridional e equatorial, como Senegal, Costa do Marfim, Mali e Mauritânia; da Turquia; de países arabes do Oriente Médio; de países do Leste europeu; da antiga Indochina (Vietnã, Laos, Camboja, e também Tailândia);da Índia, Sri Lanka, Paquistão e outros confins da Ásia; da América Latina (bem representada), incluindo aí os brasileiros, esse povo todo, que trouxe com ele valores, tradições e necessidades de toda ordem, influencia o panorama social e político da França e divide opiniões.
Muitos dos estrangeiros que engrossam o cordão dos clandestinos são ex-candidatos a asilo político que tiveram seus pedidos negados pelo Estado. A França é o país que mais recebe demandas desse tipo no mundo. O ano passado foram 61 mil, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados.
Vale dizer que entre apresentar um pedido formal de regularização e conseguir o famigerado ''titre de séjour'', vai aí uma grande distância. Em 2003, o Office Français de Protection de Réfugiés e Apatrides (OFPRA), órgão que avalia os pedidos de asilo, deu parecer positivo a apenas 14% deles. Muitas das candidaturas rechaçadas são de famílias inteiras, que quando decidem não retornar mais a seus países de origem, tornam-se, então, clandestinos em potencial.
Como ninguém sabe ao certo quem partiu e quem ficou, o número exato dos ilegais diverge. Enquanto o Ministério do Interior fala em 400 mil, há quem diga que eles são perto de 1 milhão, mesma estimativa da Grécia e da Grã-Bretanha. A Alemanha, segundo especulações, bate todos os recordes, podendo estar com 1,5 milhão de clandestinos, turcos em sua grande maioria.
Para chegar até a Europa os imigrantes ilegais arriscam a pele em rotas controladas por máfias. Os africanos, por exemplo, para alcançar a costa do Atlântico, cruzam o deserto do Saara numa verdadeira Via-Crucis. Aqueles que não morrem pelo caminho de sede e inanição se lançam ao mar em embarcações rotas e superlotadas, tendo como alvo quatro pontos específicos: as ilhas Canárias, Cadiz e o estreito de Gibraltar (para entrar na Espanha), e a ilha de Lampedusa (pertencente à Italia).
A Cruz Vermelha e a Guarda Costeira desses países recolhem frequentemente vivos e mortos dentro d'agua e em barcaças cujas quadrilhas cobram pela travessia até mil euros por cabeça. Desconhece-se o número de mortos a cada ano, mas os sobreviventes relatam histórias macabras de estupros de mulheres exauridas e bebês que caíram no mar.
Com a ampliação das fronteiras da União Européia (UE), que abrange atualmente 25 países, abriu-se um leque de possibilidades para os imigrantes ilegais. Os debutantes da UE, como Estônia, Letônia, Lituânia e Polônia, se transformaram em portas da esperança para quem vive no Leste do planeta. No fim das contas, os brasileiros, que até agora não precisam de visto para entrar na Europa têm tido mais sorte, apesar de o controle nos aeroportos estar cada vez mais rigoroso. Ao menor sinal de que a pessoa não veio mesmo a turismo, pelo sim, pelo não, os oficiais da imigração optam sem pestanejar pela deportação. (M.B.)

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