Albari Rosa





Eleitas pelo júri da Viva como as melhores salas de exibição da cidade, as do Shopping Crystal, inauguradas recentemente, investiram pesado em tecnologia. ‘‘Nossa aparelhagem está entre a mais moderna do mercado’’, diz o gerente Marcelo Souza. O tradicional Lido II ficou em segundo lugar

‘‘And the Oscar goes to...’’. A distribuição das estatuetas douradas mais cobiçadas de Hollywood, um evento que atrai a atenção dos amantes do cinema de todo o mundo, costuma ser seguida de uma corrida às salas de exibição. Filmes premiados ganham impulso nas bilheterias e mesmo uma simples indicação já conta pontos na hora de conquistar mais público. Até mesmo as produções que saem com a aura de injustiçadas acabam recebendo uma atenção especial - justamente por terem sido mal avaliadas. Aproveitando este clima de efervescência cinematográfica, a Folha Viva Curitiba reedita neste número sua avaliação das salas de exibição da cidade.
O diagnóstico do júri da Viva (veja quadro nesta página), contrastando com o clima do Oscar, não é motivo de festa, muito pelo contrário. Em geral, as salas estão num estado mais lastimável do que as solas dos sapatos do personagem Carlitos no filme ‘‘Luzes da Cidade’’. Enquanto os cinemas do shopping Crystal Plaza foram os mais aplaudidos, com uma média na casa da nota 9, a grande maioria foi metralhada pelo grupo de cinéfilos recrutado para a pesquisa. Dos 25 cinemas pesquisados, apenas 10 passaram por média, obtendo nota igual ou maior que 7.
‘‘De uma maneira geral, os cinemas estão muito ruins’’, diz o ator, produtor e diretor teatral Chico Nogueira, um aficcionado pela sétima arte que inclui na sua paixão o hábito de visitar as salas de projeção e trocar idéias com os profissionais da área. ‘‘Imagens desfocadas, telas sujas e som empastelado são alguns dos problemas mais frequentes’’.
O premiado diretor teatral Edson Bueno, que também é autor e ator, chega a ficar indignado com a situação dos cinemas de Curitiba, disparando comentários inflamados. ‘‘Não existe qualidade: as projeções são sempre vagabundas. E, mesmo assim, o preço dos ingresso é quase o dobro do que se cobra em Paris, por exemplo, onde o consumidor é respeitado e desfruta de uma tecnologia muito mais moderna’’, diz.
A preocupação com uma reprodução fiel de imagens e sons não é uma implicância de fanático por cinema. Uma projeção ruim pode chegar a estragar um filme. ‘‘Numa viagem recente pela Europa, assisti novamente um filme que tinha visto aqui em Curitiba há algum tempo. Levei um susto: era outro filme, com cor e brilho. Na primeira vez que vi, por causa da projeção horrível, fiquei com a impressão de que era um filme noir, cheio de sombras’’, relembra Bueno.
A saída para tantos problemas parece ser a entrada dos shoppings. ‘‘Os complexos de cinema são uma tendência’’, diz o jornalista e crítico Marden Machado. Mas mesmo as salas destes grandes centros de compras e lazer não escapam das críticas. ‘‘A imagem dos cines do Shopping Curitiba são tão ruins como a de outros do centro da cidade, muito mais antigos’’.
A maioria dos projetores dos cinemas tem, no mínimo, 40 anos de idade. Esse fator, entretanto, por si só não explica as imagens ruins. ‘‘Falta manutenção. O pessoal não troca as peças. As lentes geralmente são usadas mesmo quando já estão sem condições de dar um foco preciso’’, revela o projecionista Hélio de Oliveira Borges, que tem 20 anos de experiência nesta função e há dez também realiza assistência técnica.
O som também é motivo de reclamações. O sistema DTS, um dos mais modernos do mercado, que traz a trilha sonora num CD, pode ser encontrado apenas em três cinemas da cidade: o Crystal 1, Plaza e Palace Itália. Só no primeiro, entretanto, funciona na sua capacidade total, segundo Chico Nogueira. ‘‘No Palace, o som parece não acompanhar as imagens, por causa das caixas de som que não são adequadas, e no Plaza também existem problemas’’, atesta Nogueira, que é professor da sonoplastia na Faculdade de Artes do Paraná. Nos demais cinemas, o sistema mais usado é o dolby digital, que traz a trilha junto com a película. ‘‘Mas em muitos cinemas, como os do Curitiba, faltam canais e saídas de som. Fica tudo empastelado’’.
Além de Marden Machado, Edson Bueno e Chico Nogueira, participaram da eleição que resultou no ranking Osval ‘‘Tiomkim’’ Dias de Siqueira Filho, responsável pelo setor de cinema e vídeo do Museu da Imagem e do Som, e o jornalista Aldo Ribeiro.

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