Fora de área
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quinta-feira, 01 de março de 2007
Marcos Martins<br> Equipe da Folha 
Quando toca o telefone público que fica em frente à Escola Municipal Rural São Francisco, Ester Maria de Oliveira não tem outra opção: o jeito é correr. ''Ele só dá seis toques, então se não chegar lá rápido, não dá tempo para atender'', explica. Em pleno século XXI, era de altas tecnologias, o único meio de falar com a Colônia Castelhanos, que fica a cerca de 50 km de São José dos Pinhais, é pelo telefone público da escola. ''É por esse telefone que eu resolvo os assuntos da escola, que chamamos algum serviço de emergência e que recebemos recados de amigos e parentes'', conta o diretor da escola, professor Valcir Edemar Steinhaus.
E ele toca o dia todo. Sobra para Ester, que trabalha na escola e precisa acumular também a função de telefonista. ''Tem hora que eu saio com a mão cheia de sabão, porque nem dá tempo para enxaguar'', revela. A ''secretária'' da colônia anota os recados, que são enviados por outro método nada convencional nos dias de hoje: o garoto de recados. ''Se tem algum menino brincando por aqui, a gente dá o aviso e ele leva. É o pombo-correio'', brinca. Outra opção é mandar bilhetes pelos alunos, quando o recado é para a família de algum deles.
O mesmo sistema possibilita que a comerciante Aparecida Antunes, dona de uma pequena mercearia na localidade, faça os pedidos de comida e bebida para seu negócio. ''Toda a semana eu escrevo uma lista do que eu preciso e mando alguém levar para a Ester, que liga e faz o pedido pra mim. Já virou rotina'', conta. Para Aparecida isso não é problema. Transtorno é quando há a necessidade de se usar o telefone durante a noite. ''Como não tem iluminação na estrada, fica tudo muito escuro. Então para usar, só se for bastante urgente mesmo. E ainda assim tem que levar alguém junto, senão dá um medo danado de andar naquele lugar'', reclama.
Ester também têm algumas razões para reclamar, afinal, várias vezes por dia, a corrida de pelos 200 metros que separam a cozinha da escola do telefone público é feita em vão. ''Sempre tem gente passando trote. Você atende e não falam nada, ou dão risada. Aí você pára de fazer alguma coisa para atender uma chamada que pode ser séria mas é brincadeira. Isso sim atormenta'', desabafa.
Os telefones celulares, aqueles que as operadoras oferecem com ''cobertura total'' em todo o Estado, só servem de relógio na colônia. ''Eu tinha e aí vendi. Só comprei de novo porque às vezes saio para a cidade, para resolver algum assunto da escola, e aí preciso. Porque aqui embaixo, não funciona mesmo'', resigna-se o professor Valcir, que também fica totalmente afastado da Internet quando está na colônia. ''O TRE tentou transmitir os dados da urna que fica aqui, na eleição do ano passado, mas o sinal não dura muito tempo e cai. Fizeram um teste para informatizar a escola uma vez, mas acontecia a mesma coisa. Parece que não tem jeito mesmo'', avalia.
E quando o orelhão estraga, a criatividade entra em cena. Uma das soluções encontradas foi o sistema de avisos ''via bananeiros''. ''Como passam aqui na porta com o caminhão que leva bananas, rumo a cidade, pedimos e eles levam recados e documentos pra gente'', inova Ester.


