A três semanas do Carnaval, o desavisado que chega ao barracão da Leões da Mocidade, no Boqueirão, leva um susto: por enquanto, os carros alegóricos são apenas chassis de pequenos caminhões. Quem já conhece o funcionamento da festa popular em Curitiba fica mais tranquilo. ''Todo mundo faz de última hora'', explica Sérgio Condessa, o vice-presidente da escola. Tal como nas duas concorrentes, a decoração dos carros só é feita na última semana, uma vez que não há condição de protegê-los das intempéries.
A Leões, criada em 2007 a partir de uma dissidência da Mocidade Azul, desfilou pela primeira vez no ano passado e ganhou o grupo B. Em 2009, promete surpreender, vindo com o maior carro alegórico. ''E estão esperando que vamos sair pequenos.'' A fala é do diretor de Carnaval, Marcelo Nunes, 30, que evita citar o tamanho exato do carro para não chamar a atenção dos concorrentes. Seu samba enredo - ''Do seu povo, sua glória... O Nordeste passa por aqui!'' - trata dos imigrantes nordestinos que vêm para a cidade, trazendo junto a sua cultura. ''Oh! Meu 'Padim Ciço'/ Leva alegria ao meu sertão/ É dia de Reis... É festa/ É noite de São João.'' Maria Augusta Rodrigues, 66, tira os fone dos ouvidos e comenta. ''Bom refrão.'' Maria Augusta é comentarista do Carnaval do Rio para a TV Globo e esteve em Curitiba no último final de semana para conhecer a estrutura das escolas de samba da cidade.
No sábado à tarde, ela deu uma palestra aos diretores das escolas na Fundação Cultural de Curitiba, que a contratou para prestar uma consultoria na organização do Carnaval. ''Apesar de restrições à palestra, que achava que ia ser mais técnica e menos esotérica, a presença dela em Curitiba tem sido importantíssima'', comenta Paulo Schneumann, presidente da Realeza. ''É a mesma coisa que estivesse aqui o Arnaldo Cézar Coelho. A Maria Augusta tem subsídios. Nos contou que as escolas do segundo grupo do Rio de Janeiro passam pelas mesmas dificuldades que nós.'' E completa. ''A gente está há tempos falando sozinhos.'' O presidente da escola entende que, diferente de outras grandes cidades brasileiras, a prefeitura de Curitiba estava indo no sentido oposto e não apoiando o Carnaval local. E pela primeira vez em anos o financiamento público não chegou a poucos dias da festa.
Com o dinheiro em caixa já em dezembro, a Embaixadores da Alegria, por exemplo, sentou para discutir o tema e o desfile da escola ainda no mês de Natal, o que, por mais tarde que possa parecer, foi uma novidade. ''O grande problema é para comprar, pois você só consegue o material que sobrou'', diz Saul D'avila, da Embaixadores da Alegria, que cita o mês julho como ideal para compras, algumas das quais são feitas no Rio, onde há maior disponibilidade de adereços para a festa. Já o presidente da Realeza entende que sua escola está a três semanas da festa preparado como se fosse na última. Em 2007, a porta-bandeira da escola vestiu pela primeira vez a fantasia na avenida, no dia do desfile. A deste ano está pronta.
Maria Augusta trabalha com o Carnaval do Rio desde 1969. Está curiosa para ver a resposta da sociedade curitibana e entende que o trabalho é de longo prazo. ''O Carnaval de Curitiba está em um momento de retomada. A Fundação Cultural, ao trazer alguém de fora, está mostrando vontade política de dar um impulso'', opina. Para concluir, faz algumas comparações. Cita a passarela carioca, que tem 800 metros, em que escolas com 4000 integrantes desfilam por 82 minutos, com 64 mil pessoas no sambódromo. O trecho da Cândido de Abreu, em Curitiba, tem 280 metros, as escolas daqui vão à avenida com pouco menos de 500 integrantes, em um desfile que dura uma hora no caso do Grupo A. ''Com um público de 15 mil pessoas que tivemos em 2008 e guardando as proporções do tamanho das cidades, é um número muito bom'', afirma. ''Merece um estímulo. É um trabalho de boa qualidade feito com muito pouco recurso.''

mockup