1) Exaltar os homens de idéias, os empreendedores, os que produzem. 2) Ser imparcial para poder fazer a exaltação ou a crítica, quando preciso. Dois fortes postulados da Folha de Londrina. O primeiro, de João Milanez, fundador e diretor do jornal; o segundo, de Nilson Rímoli, primeiro diretor de Redação. Homens das primeiras horas. Um terceiro homem forte foi João Rímoli, sábio e sereno jornalista. Um quarto, Manoel Vilela de Magalhães, jornalista polivalente. Somados, os itens 1 e 2 resultariam numa receita de sucesso. Resultado final: este jornal que temos. Uma ideologia que nunca se alterou.
Mas estou escrevendo para contar um pouco de minha aventura pessoal, vivenciada durante 40 anos neste jornal de 50. E não porque isto seja tão importante para os leitores - os jornalistas contam as histórias de suas vidas profissionais para eles mesmos lerem... Mas porque o editor-chefe João Arruda me pede. Contar 40 anos de história - 14 mil edições - ocupariam número igual de páginas inteiras de jornal, porque cada dia é um caso...César Augusto‘‘De passagem’’Walmor: aprendizado com Nilson Rímoli, a quem sucedeu ‘‘temporariamente’’ por 27 anos
Corria a década de 50. Naqueles tempos não havia telefonia por DDD, nem televisão. As notícias chegavam, muito escassas, por telégrafo. Para saber o que acontecia em São Paulo - a capital dos grandes acontecimentos - tínhamos que ler os jornais de lá, que chegavam já cedinho, porque os vôos entre Londrina e São Paulo eram quase uma ponte aérea. (Nosso aeroporto era o terceiro do Brasil).
Costumávamos recortar certas notícias dos jornais paulistas, para publicá-las na Folha, pois a maioria das pessoas não tinha acesso a eles, aqui. Usávamos a gilete, daí derivando-se o denominado jornalismo gilete-press... Uma denominação pejorativa, pois consistia em copiar os outros. Claro que não era a edição inteira, mas um pouco sempre tinha. E foi um episódio relacionado com a gilete-press que me ensinaria uma lição que venho carregando deste então.
O fato: João Rímoli, intelectual, brilhante redator, muito centrado e consciente, estava fazendo seus recortes do dia. E eu, novato recém-chegado e que não sabia nada de jornalismo, fiz um gracejo meio em tom de deboche: ‘‘Aí, seo João, fazendo a gilete-press’’! Ele parou o que estava fazendo, olhou-me por inteiro, e do alto de sua sabedoria me disse, sereno, mas incisivo: ‘‘Isto mesmo, fazendo gilete-press. Mas eu sei também escrever editoriais, sei escrever reportagens’’... Como a me dizer: ‘‘E você, o que sabe?’’
Recolhi-me, entre envergonhado e reflexivo. Daí em diante, e até hoje, todas as vezes que sou atacado pela vontade de ver os mal-feitos de alguém, busco saber o que mais a pessoa sabe fazer, e acabo descobrindo que, se ela está no momento fazendo algo não tão edificante, também tem feito e sabe fazer outras coisas muito boas. Como o João Rímoli, que era gilete-press mas também sabia escrever seus próprios textos, e muito bem!
No comandoNove anos depois que cheguei de Meleiro (SC), certo dia deparei-me como que órfão, porque foram embora os irmãos Nilson Rímoli e João Rímoli, foi-se Manoel Vilela. A Redação já não tinha um comando, porque Milanez cuidava de tantas outras coisas, principalmente arranjar dinheiro para tocar o jornal, fazer relações públicas, viajar.
A mesa de Nilson estava acéfala. Eu e Estélio Feldman tínhamos a mesma idade cronológica e profissional. De repente nos vimos com a carga e a responsabildade editorial em nossas mãos. Milanez vivia mais dentro de avião que dentro do jornal, porque tinha que garimpar verbas publicitárias em São Paulo e Rio. Voava mais que Juscelino e Assis Chateaubriand...
Eu sentava à mesa deixada por Nílson, mas não por trás dela e sim pela frente, porque havia um mito naquela cadeira vazia. Durante dois anos me sentei assim. Ia ficando, a cada dia, mais diretamente responsável pelo setor editorial, enquanto Estélio cuidava de escrever a opinão do jornal. Era meu conselheiro. Ele tinha uma forte intuição acerca das coisas. Assumimos justamente no primeiro ano do regime ditatorial.
Imagine-se a insegurança que tínhamos! Eu dizia a Milanez: ‘‘Patrão, chama o Vilela’’! Mas Vilela, muito bem em Brasília, trabalhando na sucursal de ‘‘O Estado de S. Paulo’’, não queria sair de lá. E me dizia, quando eu lhe ligava: ‘‘Você é que tem que assumir’’. Um dia Estélio me disse, enérgico: ‘‘Assuma logo essa função, sente-se do outro lado da mesa’’!
Eu dependia do convite do Patrão, mas ele não se manifestava, deixava correr, já que as coisas estavam andando. Então, insuflado pelo Estélio, acabei me sentando por trás da mesa... Milanez ficou indiferente. Eu e Estélio fomos tocando o barco, fazendo mudanças, já assumidos de vez. Acabei redator-chefe, ou diretor de Redação (como acabou saindo no expediente do jornal). Fiquei na função, que eu imaginava temporária, durante ‘‘apenas’’ 27 anos.

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