Hoje uma apreensão por razões políticas não aconteceria, porque não há censura, mas naqueles anos-de-chumbo da Revolução, ousar enfrentar o Sistema era no mínimo brincar de colocar a cabeça na guilhotina. Nos dias que antecederam a queda do governador do Paraná, Haroldo Leon Peres, em 23 de novembro de 1971, vivíamos momentos de agonia na Redação da Folha de Londrina, porque tínhamos as informações, obtidas através de nossos meios, de que a renúncia forçada do governador iria acontecer, mas não podíamos noticiar.
Não bastasse o medo da prisão, que era sumária, os censores ficavam o tempo todo dentro da Redação, nos enervando com aquela presença incômoda e nos atrasando o serviço.
Eu era o diretor de Redação e, como tal, responsável por tudo; e o homem marcado para ser preso quando alguém tivesse que ser. Leon Peres - advogado e deputado federal por Maringá - foi guindado ao cargo de governador do Paraná. A convite do presidente Garrastazu Médici. Por que foi ele o escolhido, nunca se soube.
Como parlamentar, era integrante da direita linha dura, e como governador se transformaria no homem mais temido do Paraná, mais que um general 4 estrelas, porque estes eram discretos mas Leon Peres não. Valia-se da força do cargo e do respaldo de Brasília.
Até alguns militares graduados tinham receio dele, porque ele só dava explicações ao presidente da República, que o nomeara. Mas, paradoxalmente, no Paraná encontrava resistência das lideranças políticas do próprio partido do governo.
E da forma como foi nomeado, também o afastaram, exatos 252 dias após ter assumido. E sem muitas explicações. Foi dia 23 de novembro de 1971. A versão oficial é que teria sido por corrupção, após denúncia do empreiteiro Cecílio do Rego Almeida, que o acusara de haver-lhe pedido US$ 1 milhão em troca de liberar o pagamento de uma conta que o Estado devia à sua empresa, pela execução de parte das obras da Estrada de Ferro Central do Paraná.
(Oito anos após ser apeado do poder, em entrevista ao repórter Messias Mendes, da sucursal da Folha de Londrina em Maringá, Leon Peres contestaria Rego Almeida, afirmando que aquelas obras, no governo anterior, haviam sido entregues a esse empreiteiro sem concorrência e que ele queria receber 180 milhões de cruzeiros quando o valor real só chegava a 60 milhões). Haroldo Leon Peres viria a falecer alguns anos depois, relativamente jovem.
A notícia No dia l7 de novembro de 1971 recebi um chamado de nosso informante em Brasília, garantindo que o governador Leon Peres estava prestes a cair. E me passava a informação de que o governador havia sido chamado ao Ministério da Justiça e que tivera, naquele dia, uma reunião de 8 horas, a portas trancadas, com o ministro Alfredo Buzaid.
Por que o Ministério da Justiça e não o do Exército? Porque era assim que funcionava, para passar a imagem de que tudo se operava pelas vias legais, através da Justiça comum. Uma forma, também, de atenuar a repercussão internacional.
Naquele noite, na Redação, já tínhamos a certeza de que o governador iria cair, mas, aos censores, eu comuniquei a notícia da reunião de Buzaid com Peres como ‘‘algo normal, uma simples rotina’’, como de fato parecia ser. Não fosse essa nossa ginástica diária e só sairia no jornal a coluna de receitas de bolos... Eles nem questionaram. Nessa reunião tudo já estava definido, mas se não podíamos ainda publicar a ‘‘bomba’’ do afastamento, queríamos ao menos noticiar essa estranha - porque prolongada - reunião.
E se tínhamos o propósito de fazê-lo com manchete de primeira página e em letras gigantes (os censores não imaginavam que íamos fazer isso), era para alertar aos leitores que havia algo mais no ar do que os urubus e os aviões de carreira...
O Serviço Nacional de Informações - o temível SNI - sabia do que se passava, mas os censores nem sempre. Geralmente eles só tomavam conhecimento dos fatos ao receberem a proibição de publicá-los. E muitas vezes nós tambem. Mas havia coisas que sabíamos e o SNI não sabia que sabíamos, então eles não censuravam o que inaginavam que não tínhamos.
E os censores - que policiavam todos os nossos canais de recepção de notícias, menos óbviamente os ‘‘in off’’, também não se ligavam, já que não haviam recebido a respectiva ordem de proibição. Esses dias eram os nossos dias de gloria. A bronca explodiria sempre no dia seguinte e eu era chamado a prestar esclarecimento na Polícia Federal. Sempre eu, pelo fato de ser o diretor de Redação. Confesso que ia sempre com medo de ficar preso, porque não há valentes numa horas dessas!
A presença dos censores até nos confortava às vezes, porque não tínhamos que fazer auto-censura, esta mais angustiante que a deles. Quando eles não vinham, ficávamos preocupados...
Ao prestar depoimento, sempre tomado a termo, eu me fazia de bobo, alegando que se não havíamos recebido nenhuma ordem de proibição era porque julgávamos permitido divulgar... Eles não gostavam de afrontas, portanto fazer-se de bobo era uma boa prática.
Interessante que, certa vez, um escrivão da PF - com boa formação jurídica e que eu descobrira ser um democrata e inconformado com o regime - me orientara a que não fosse tão valente nos depoimentos. E me disse por que: ‘‘Nunca ninguém, além da comunidade do SNI, irá ler isto. O que você falar contra o regime, agora, será considerado inconformismo ideológico e pesará contra você; e o que você falar a favor, passará esquecido, porque quando a Revolução acabar todos estes papéis já terão sido destruídos antes, para que não fiquem marcas’’.
Os militares, os próprios agentes federais, os informantes oficiais e os dedos-duros (estes eram abomináveis, porque infiltrados clandestinamente), tinham, sim, receio do dia de amanhã, por isso temiam pelas aberturas democráticas.

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