MILLÔR
Fim do espanto, num século de babacas
O depoimento do humorista carioca Millôr Fernandes:‘‘O mais marcante foi sem dúvida alguma o meu nascimento e a minha sobrevivência em boa parte dele. Acredito que em outros lugares do mundo o mais importante tenha sido, para si próprio, o nascimento de cada um. O ser humano não escapa de si mesmo’’.
‘‘No mais, o Século 20 , admirável mundo novo, acabou com um dos sentimentos essenciais ao Homem – o espanto. Espanto, nunca mais. Neste século criou-se desde o automóvel, a viadagem, a televisão, o câncer no duodeno, a viagem à Lua, a aids, a Internet, a cura da poliomielite, o avião, a trepada sem erotismo, a imprensa desintelectualizada, a fotografia do átomo numa fração 32 milhões de vezes menor do que o segundo’’.
‘‘Assim o Século 20 pode rir do Século 19, que não acreditou na luz elétrica, não acreditou na mecanização em massa, não acreditou que o automóvel ia substituir o cavalo, não acreditou na pintura impressionista, nem na não figurativa’’.
‘‘Mas o Século 21 rirá do Século 20 como o século dos babacas. Acreditaram em tudo. Por medo de parecer velho, retrógrado ou reacionário. Tiveram medo até de chegar em frente a uma pintura de merda, e a uma instalação com merda, e dizer simplesmente: ‘‘Que bosta!’’
‘‘Só um conselho, individual e coletivamente: Tenham sorte!’’

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