Fim da violência ainda está longe
A melhor explicação que o ministro do Desenvolvimento Agrário (MDA), Guilherme Cassel, tem para a crescente violência no campo brasileiro é que nunca foram executados tantos projetos de reforma agrária como nos três primeiros anos do governo Lula - e cita 262 mil famílias num universo de aproximadamente 700 mil famílias assentadas até hoje. O número exato de famílias assentadas é fonte de discussão no próprio governo federal: 784 mil para o MDA; e 663 mil para o Incra. Os números oficiais apontam ainda a existência de 100 mil famílias acampadas.
Segundo o ministro, que falou por telefone com a Folha, a meta de assentar 400 mil famílias até o fim do ano ''está mantida e vai ser cumprida''.
O Movimento de Sem Terra (MST) - que diz representar uma base de 350 mil famílias assentadas em todo o país - reconhece a ascensão do programa de reforma agrária, mas alega que os assentamentos chegaram a, no máximo, 170 mil famílias - e outras 170 mil estariam em acampamentos irregulares.
As declarações do MDA e MST convergem, porém, para uma insólita coincidência quando o assunto é a falta de informações precisas sobre a produtividade dos assentamentos. Indagações sobre a produção dos assentamentos e a renda média familiar simplesmente não podem ser respondidas em razão do limbo estatístico que envolve o assunto.
A desculpa que não convence:''O Brasil precisa urgentemente de um censo agropecuário, o último tem mais de 10 anos. Tínhamos planejado para fazer esse ano, mas não houve dinheiro'', disse o ministro. Representantes do MST e até de universidades desconsideram a importância destes levantamentos, alegando que, acima da produtividade, está a possibilidade de subsistência das próprias famílias. Os dados mais detalhados sobre os assentamentos mostram, porém, condições bastante precárias.''No início do governo, 70% dos assentamentos não tinham água, mais da metade não tinha energia, quase 70% não tinham estrada, e apenas 10% eram atendidas por assistência técnica. Estamos investindo pesado para reverter isso'', afirma o ministro.
Apesar de todos os desafios e, na contramão das visões mais pessimistas sobre reforma agrária, o ministro Guilherme Cassel acredita que ''se o atual ritmo de assentamento se mantiver, em três a cinco anos passaremos a trabalhar com menos violência, visando a qualificação técnica das famílias''.''O que fizemos até agora talvez ainda não tenha um impacto maior porque são dois séculos de demanda por terra. Mas tenho convicção de que vamos reduzir em muito os conflitos no campo''. Especificamente sobre o Paraná, o ministro disse que a prioridade é aumentar a produtividade dos assentamentos: ''Aí, nosso maior desafio é fazer as coisas funcionarem bem, como na fazenda Araupel, para justificar os investimentos''.(F.C.)





