Filhos são fiscais do casamento dos pais
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sábado, 30 de julho de 2005
Leandro Quintanilha<br> Agência Estado 
São Paulo - Mamãe e papai já sabem namorar? Pois deviam. São professores involuntários dos filhos numa disciplina supercomplicada: a interação entre homem e mulher (o equivalente à físico-química nas relações humanas). E, a despeito de qualquer preparação teórica, estes mestres domésticos só ensinam, de fato, o que vivem.
Assim, as crianças aprendem em casa, só de olhar mesmo, suas primeiras lições sobre o amor. E podem entender tudo errado, simplesmente porque os pais às vezes dão maus exemplos. ''Os filhos são observadores sutis do casamento'', afirma a terapeuta familiar Judith P. Siegel, professora da Universidade de Nova York e autora do livro ''O Que os Filhos Aprendem com o Casamento dos Pais'', que acaba de ser lançado no Brasil. ''As crianças aprendem e copiam.''
Eis o perigo. O que se aprende em casa pode gerar medos, comportamentos defensivos e expectativas que conspiram contra a intimidade na vida adulta. A terapeuta afirma que até os parceiros conjugais parecem ser escolhidos, inconscientemente, de modo a recriar aspectos do casamento dos pais.
''Toda crise familiar é informada à criança de alguma maneira'', afirma a psicoterapeuta Elisabeth Wajnryt, uma das idealizadoras no Brasil do curso Como Falar para Seu Filho Ouvir e Como Ouvir para Seu Filho Falar, baseado na obra homônima das psicólogas norte-americanas Adele Farber e Elaine Mazlish.
Os filhos são fiscais-mirins do casamento dos pais. Vinícius, 7 anos, assume declaradamente essa função em casa e dá o exemplo para Victor, 4 e Raissa, 1, os irmãos mais novos. ''É o nosso mediador'', brinca a mãe, a dentista Vivian Muniz, casada com comerciante Marcelo.
Dialógo Chamados de ''eternos namorados'' pelos amigos, eles dificilmente brigam, mas, quando acontece... ''O Vinícius nos chama para conversar e pergunta o que está acontecendo.'' O casal tenta, sempre que possível, explicar o desentendimento sem culpar ninguém.
A psicologia, mais uma vez, avaliza o diálogo. Quando os pais não conversam com a criança, pequenas desavenças do dia-a-dia podem ser tomadas como grandes embates. ''Toda crise tem nome'', diz Elisabeth. ''Os nomes dão a dimensão exata do problema'', ensina. Por isso, é recomendável comentar com a criança, por exemplo, que mamãe e papai 'discordam' sobre a viagem de férias. O diálogo deve se aprofundar de acordo com a idade (e a curiosidade) da criança e deve acontecer mesmo quando o tema é dos mais delicados, como a separação.
A executiva Kátia Botelho está no terceiro casamento e tem dois filhos. Diego, que hoje tem 18 anos, tinha 3 quando a relação dos pais foi oficialmente desfeita. Gabriela, 10, a meia-irmã caçula, nem completara o primeiro ano de vida quando Kátia se separou do segundo marido. Os pais das crianças também tiveram filhos em outros casamentos. Ah, e Kátia casou-se de novo. Era para ser a maior confusão, né?
Mas não. ''As crianças se sentem seguras, porque eu e os meus ex-maridos sempre nos respeitamos.'' Os laços foram preservados; novas esposas e filhos, agregados.


