Filho de Deus, filho do homem
Agência O Globo
Para comemorar o segundo milênio desta figura que deu nome a uma civilização, grandes festas estão programadas por toda parte - com um destaque natural para o que acontecerá em Roma e em Jerusalém. E, com tudo isso, estaremos hoje um pouco mais perto de entender, afinal, quem foi Jesus de Nazaré?
Durante muito tempo, esse esforço de compreensão seguiu caminhos divergentes. A idade moderna tinha contas a acertar com a Idade Média período em que a religião, intimamente ligada ao poder temporal, fora pretexto para muitos abusos. Voltaire é um exemplo típico de intelectual moderno que partiu ao assalto da fortaleza cristã para ele, sinônimo de obscurantismo (embora ele ainda acreditasse em Deus). Estudos históricos e científicos procuravam mostrar que não havia confiabilidade no relato dos Evangelhos; que, assim como o Antigo Testamento, eles exibiam incongruências; que tudo aquilo podia ser uma invenção de pessoas bem intencionadas (ou não).
No século XIX, serviu de modelo imensamente festejado a Vida de Jesus, escrita por Ernest Renan num francês cintilante. Renan simpatizava com a figura, mas apresentava um Jesus Cristo despido de todos os atributos da divindade: um suave profeta, um homem de boa vontade, dedicado a estabelecer a concórdia entre os homens.
De seu lado, as igrejas cristãs diziam que a ciência histórica não tem o que fazer nesse terreno; que a fé é o único modo de penetrar nos mistérios da religião.
Esse diálogo de surdos, hoje, está bastante modificado. A pesquisa sobre o Jesus histórico - o homem de carne e osso que viveu num tempo e lugar bem determinados - tem o apoio da própria Igreja católica, através de centros como o Instituto Bíblico de Jerusalém. O sentimento religioso, por outro lado, conhece uma surpreendente reabilitação neste fim de século. No mundo cristão, ganham força os movimentos carismáticos, onde a emoção parece reivindicar o espaço que, durante muito tempo, foi dominado pelo enfoque racional.
E com tudo isso, o mistério permanece. Não apenas os quatro Evangelhos parecem fazer pouco caso de um enfoque mais rigoroso na estruturação dos textos, como o Jesus Cristo que emerge desses textos tem uma curiosa maneira de revelar e ao mesmo tempo esconder a sua verdadeira natureza.
O Cristo glorioso, o Filho de Deus, que alguns pintores tentaram retratar, só aparece ali uma vez: na cena da Transfiguração, a que só tiveram acesso os discípulos mais chegados. Para os outros, e para as multidões, a proposta é mais ou menos a que é feita ao homem de hoje, assim como foi feita aos personagens do Antigo Testamento.
Ela poderia ser verbalizada mais ou menos assim: Não, eu não vou dar a você um teorema com resposta pronta; eu não vou violentar a sua liberdade de escolha; eu não vou dar a você provas definitivas de que eu sou Deus. O que eu proponho é um caminho, que é um caminho de vida, uma experiência de vida, e não uma abstração. Quando você começar a andar por esse caminho, vai entender um pouco mais e ainda mais um pouco, à medida que avançar.
É o que têm ensinado alguns dos maiores expoentes do cristianismo. É o que talvez explique esse fascínio que já dura dois mil anos.





