Filas sem fim
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 17 de janeiro de 2008
Luiza Xavier<br>Equipe da Folha 
Difícil imaginar quem ainda não tenha passado pela desagradável experiência de perder boa parte do dia em uma fila. A impressão é de que, quanto mais a cidade cresce, as filas aumentam na mesma proporção. Como se não bastasse a realidade, o imaginário popular ainda reforça que Curitiba é a capital onde a população tem a formação de filas como hábito. Não faltam brincadeiras e piadinhas a respeito do tema.
Para verificar como os moradores da Capital se sentem ao serem obrigados a enfrentar mais esse obstáculo da vida urbana, a reportagem da FOLHA saiu às ruas e encontrou as mais diversas opiniões a respeito desse mal necessário. Para o curitibano Luciano José Domingues, que na sexta-feira passada enfrentava com bom humor a enorme fila do Restaurante Popular, na Praça Rui Barbosa, quem vive em Curitiba mantém a formação de fila como uma mania. Sem dúvida. O curitibano gosta mesmo de fila. Às vezes nem sabe para o que é, mas já vai entrando. Para mim, as piores são as de banco, comentou.
Na mesma fila, alguns metros à frente, a aposentada Aparecida da Silva, de 65 anos, nascida no Norte do Paraná, se conformava: Enfrento fila em quase todos os lugares aonde vou. Mas, acho que é o melhor sistema, é o mais justo, afirmou ela, que estava indo pela segunda vez ao restaurante cuja fila já se tornou ponto de referência no
Centro da cidade.
A organização também foi citada pela contabilista Norvaine Beghmann como argumento para justificar a existência de tantas filas. Acho que é uma questão de educação. Fazer fila é a única maneira de organizar. Isso só acabaria se o atendimento ao público melhorasse. As filas de banco, para mim, são as piores, afirmou ela, que colocou na ponta do lápis o tempo gasto diariamente em diferentes filas. Todo dia, passo quatro horas, em média, em diversas filas: na Receita Federal, nos postos da Previdência Social, nos bancos e, agora, até na hora de me refrescar do calor, acrescentou Norvaine, que aguardava debaixo de sol forte para comprar sorvete.
Também acostumada às filas diárias, a secretária Margareth Santiago tem até uma estratégia para diminuir o incômodo da espera. Para me distrair, puxo conversa com alguém ou fico ouvindo música, relatou. Segundo ela, quem mora na capital paranaense não consegue deixar de ficar enfileirado em algum lugar. Na minha opinião, curitibano tem mesmo mania de formar fila. Uma vez estive em Santos (litoral paulista) e observei que lá as pessoas não fazem fila para entrar nos ônibus. Bancos e supermercados são os locais onde passo mais tempo na fila, acrescentou.
Espera causa ansiedade e revolta
Na avaliação da psicóloga Jocelaine Martins da Silveira, professora de Análise do Comportamento, na Universidade Federal do Paraná (UFPR), a fama dos curitibanos de ter uma certa atração por filas é, na verdade, apenas o modo como os habitantes da cidade encontraram para se organizar. Os grupos vão se organizando de acordo com
o que consideram
funcional, explicou.
De acordo com a professora, os sinais urbanos da capital, com suas estações-tubo e terminais de ônibus, por exemplo, favorecem esse comportamento e punem aqueles que tentam burlar a ordem vigente os fura-filas. Quanto à sensação de ansiedade que toma conta de muita gente que é obrigada a esperar em filas, Jocelaine considera que o problema está associado à falta de noção de tempo. Se a pessoa vai para o ponto de ônibus já sabendo o horário previsto para o veículo chegar, essa ansiedade é menor. Do contrário, se fica numa fila sem a perspectiva de quando será atendido, acaba ficando
mais ansioso, afirmou.
Era assim que se sentia a aposentada Gláucia Villar, na última sexta-feira, quando aguardava atendimento no posto da Previdência Social da Avenida Visconde de Guarapuava. Mesmo sentada em uma das muitas cadeiras colocadas à disposição dos usuários, ela não se conformava. Eu vim apenas verificar o pagamento da minha aposentadoria que está atrasado. Já fiquei horas na fila. É um desrespeito. É fila para pegar a senha e depois outra para ser chamado. Nos bancos também é um horror. Segunda-feira fiquei uma hora na fila. É
estressante, lamentou.
Quem fazia coro com a aposentada era a dona de casa Adriana Fátima da Silva.Eu cheguei às 11 horas hoje. Estou há 3 horas na fila. Vim verificar um erro no pagamento. Peguei esse papel e agora preciso esperar ser chamada, reclamou.
Segundo a assessoria do INSS, a maioria das pessoas ainda desconhece que os serviços podem ser agendados pelo telefone 135, o que acaba aumentando as filas nos postos de atendimento. A ligação é gratuita e o serviço está disponível das 7 às 22 horas, de segunda a sábado. Podem ser agendados perícia médica, entrada em benefícios, manutenção de benefícios, pedido de auxílio-doença, aposentadoria, informações sobre benefício, reclamações e denúncias,
entre outros serviços.


