Acompanhando o corrimão do percurso onde pode ler com os dedos as placas com informações em braile, o jovem Bruno Leal, do Instituto Paranaense de Cegos, descobriu porque a planta a sua frente chamava-se Orelha de Lebre. "É porque ela é peludinha e comprida que nem uma orelha de coelho mesmo". Sua percepção foi possível porque estava em um jardim diferente, onde outros sentidos como o tato, olfato e audição compensam a falta da visão. Trata-se do Jardim das Sensações, inaugurado ontem pelo prefeito Beto Richa (PSDB) no Jardim Botânico de Curitiba.
O local permite que portadores de necessidades especiais, principalmente deficientes visuais, experimentem um verdadeiro festival sensorial ao longo de um trajeto de pouco mais de 200 metros preparado de forma a aguçar a percepção daquilo que os cerca. Para intensificar essas sensações, os visitantes que não têm necessidades especiais recebem uma venda para os olhos, de forma a dar ênfase aos outros sentidos.
De acordo com a bióloga Renata Helen Perez, uma das idealizadoras do espaço, trata-se de um lazer educativo, onde a idéia é fazer com que as pessoas se coloquem no lugar dos portadores de necessidades especiais. Pelo caminho existem vasos com plantas de diversos aromas, formas e texturas a altura de um metro do chão, o que facilita o contato com as espécimes, tanto para tocar quanto para cheirar.
Foram escolhidas apenas plantas nativas para compor o ambiente. Segundo Renata, foi feito um estudo para avaliar quais delas se adequariam mais aos espaços com luz ou com sombra. Todas elas são produzidas no Horto Municipal de Curitiba. Devido ao desgaste, a que são expostas, tanto pelo toque dos visitantes quanto pela própria condição de cada vegetal, que tem suas épocas certas para florescer, elas são trocadas de tempos em tempos. A preferência são para aquelas que têm aroma característico, como ervas como hortelã e losna, e flores, ou as que têm formas exuberantes, como a orelha de lebre.
Segundo a arquiteta responsável pelo projeto, Loreley Motter Kikuti, a intenção foi criar um espaço onde as pessoas possam se surpreender com texturas, toques e aromas, mas sem esquecer também a beleza visual. "No fim eles tiram a venda para ver aquilo que sentiram", disse.
O Jardim das Sensações foi instalado em um espaço de 2.381 metros quadros fechado por cercas de bambu dentro do Jardim Botânico. A intenção, segundo Loreley, foi dar a idéia de um "jardim secreto". "Queriamos um espaço reservado, para que quando a pessoa entrasse ficasse surpresa", afirma. Além das diversas espécies de plantas, o trajeto conta também com variados tipos de piso, onde os visitantes podem experimentar diferentes sensações físicas.
Segundo o secretário de Meio Ambiente, José Antônio Andreguetto, a prefeitura tem buscado dar oportunidades de lazer aos portadores de necessidades especiais. "Para que eles tenham as mesmas possibilidades que nós temos", completou. O valor do investimento total para a instalação do jardim foi de cerca de R$ 150 mil. Apesar do custo não ser elevado, não há previsão para a reprodução desse tipo de espaço em outros parques da cidade.
Quem já visitou o local aprovou. Quando retornar, o estudante Carlos Henrique Medeiros, de dez anos, quer levar sua bicicleta. "Me diverti bastante" afirmou ele, sem saber que no local não é permitido pedalar. Seu colega, Eduardo Cardoso, 11 anos, também curtiu a experiência. "Tinha uma planta com cheiro de peixe" admirou-se.

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