Festa interrompida
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sexta-feira, 16 de janeiro de 2009
Omar Godoy<br> Equipe da Folha 
Eles não são tão numerosos quanto os pagodeiros, sertanejos, vileiros, skatistas e playboys de plantão. Mas, quando se juntam, formam um grupo grande, novo e extravagante.
São os otakus (fãs da cultura pop japonesa), emos, metaleiros, góticos e afins, cada vez mais presentes na paisagem curitibana. Uma tribo composta por microtribos, cujo principal ponto em comum talvez seja justamente a dificuldade - ou a falta de vontade - de se adequar às outras turmas.
Seu ponto de encontro, além da internet, é a Praça do Japão, entre os bairros do Batel e Água Verde, onde acontecem os Mini Matsuris (eventos mensais promovidos pela comunidade japonesa). À primeira vista, os frequentadores não passam de nerds reunidos para falar sobre suas paixões e obsessões culturais. Não é bem assim.
Barulho, vandalismo, bebedeira, brigas e bolinação em público se tornaram uma constante na praça e suas imediações. Tanto que a vizinhança, representada pelo jornal do bairro, encampou uma campanha informal contra a realização das festas, que chegam a atrair 500 pessoas. As queixas repercutiram e os organizadores decidiram cancelar os Mini Matsuris de janeiro e fevereiro.
O que é uma pena, a julgar pela falta de programação cultural gratuita para os jovens. Mas não é a primeira vez que isso acontece. Em meados do ano passado, a polêmica sobre a presença dos vileiros nos shoppings centers evidenciou o mesmo problema: como controlar a garotada que só quer se divertir nos fins de semana?
Cláudia Hamasaki, responsável pelo Centro de Cultura Praça do Japão, garante que a festa vai voltar em março, porém com mudanças. ''Vamos priorizar a alimentação, com pratos típicos, e realizar mais oficinas e exposições. A ideia é chamar outro tipo de público'', adianta.
Para os moradores das redondezas, isso não é suficiente. Luiz Gonzaga, diretor do Jornal do Batel, que deu voz aos queixosos, defende um policiamento mais rigoroso. ''A praça é de todos, e não apenas dos vizinhos. Só que estes não estão podendo usá-la'', afirma.
O comerciante Fernando Abagge, que mora e tem uma loja na região, concorda com Gonzaga. ''A gente nem sai na rua quando acontecem essas festas'', conta. No entanto, ele sugere uma solução mais radical. ''Este não é um bairro para receber esse tipo de evento. A festa deveria se mudar para um espaço maior, como um parque''.
Cláudia admite que um maior efetivo policial no local pode evitar abusos, mas chama a atenção para uma possível ''transferência do problema''. De acordo com ela, os jovens agora estão se reunindo em volta dos shoppings. ''Eles se falam o tempo todo pela internet. É uma ilusão achar que vão se dispersar''.
A organizadora ainda lembra dos planos do ilustrador Cláudio Seto, morto em dezembro do ano passado. Um dos maiores entusiastas da cultura nipônica por aqui, ele sonhava em transformar as imediações da Praça do Japão em uma versão brasileira do Harajuku - bairro de Tóquio que virou ponto turístico por reunir gente de todas as tribos, em um desfile de estilos, cores e tendências.
Para Cláudia, a garotada da Praça do Japão faz parte de uma geração que quer ser vista a todo custo, nem que para isso tenha de adotar um visual estranho. Daí o surgimento da verdadeira ''fauna'' que anda assustando a vizinhança antes mesmo de cometer algum abuso. ''A coisa saiu um pouco do controle, sim. Mas acho que os moradores também exageram um pouco. Agora, os bons vão pagar pelos maus'', resume.


