Guaratuba - E no princípio, para um bom dia de praia, bastava um corpo para espreguiçar e um sol para dourar. Aí Deus disse ‘‘Haja luz’’ e então houve luz – que depois se transformou em um sol endiabrado que cada vez queima mais e mais. Aí veio o chapéu, o boné, o guarda-sol, o óculos escuro, o protetor solar, as cangas, o biquinis cavados, as sungas brancas, a Coca-Cola e a Skol para refrescar. Aí o homem inventou o MP3, o celular, o i-Pod, o MSN, o Orkut, a câmera fotográfica digital, a lan house, o laptop e um dia de praia nunca mais foi o mesmo.
Cada vez mais, aparelhos eletrônicos disputam espaço na areia com formas de se proteger do sol, alimentos e bebidas. Se antes uma cadeira e um guarda-sol bastavam para férias e descanso, hoje existem pessoas que não vão para praia sem checar os e-mails ou carregar junto o celular, a máquina fotográfica e um tocador de MP3. São os novos tempos: o do farofeiro digital.
Naturalmente, a comparação com o sujeito que carrega tudo para a praia e arma aquela bagunça é uma brincadeira, mas, de fato, as pessoas que carregam equipamentos digitais para a praia reconhecem que não podem perder um momento da diversão: como passar as férias no Litoral sem fotografar tudo?
É o caso da comerciante Viviane Burin, 33 anos, de férias em Guaratuba. Ela foi ao Litoral do Paraná em um excursão de 33 pessoas, entre familiares e funcionários do mercado que administra. ‘‘É a primeira vez que a maioria está vindo para a praia, então a filmadora e a máquina fotográfica são indispensáveis para registrar todos os momentos’’, diz, justificando as poses.
Se Viviane usa camêra com a intenção de, após o termino da viagem, montar um vídeo com os melhores momentos das férias, a estudante curitibana Caroline Moura, 17, usa seu
i-Pod para caminhar na praia ouvindo música. De férias desde o final de dezembro, ela pretende ficar em Guaratuba até março. Até lá, todos os dias vai caminhar escutando música. A tecnologia na praia não para por aí, porém. Ela também não consegue desgrudar do celular, que tem acesso à internet.
‘‘Não fico sem celular, mas é por causa do meu namorado’’, diz a jovem. Pouco depois, ela revela que usa o telefone também para acessar o Orkut e o MSN. ‘‘Mas é só de vez em quando. Sou normal. Não sou viciada, mas não abro mão de coisas tipo o celular, o computador e o i-Pod’’, emenda.
Orkut e MSN se tornaram os grandes inimigos do sol e do mar, que antes reinavam sozinhos na temporada. Agora, as lan houses começam a disputar lugar com a areia. ‘‘O pessoal vem mesmo para entrar no MSN e no Orkut’’, diz Daiane Cristina, funcionária de uma lan house em Guaratuba. ‘‘Mesmo estando na praia, as pessoas ficam dentro da lan house. Eu não entendo!’’, espanta-se.
‘Quase um vício’
Sempre há uma justificativa para perder horas de sol em frente ao computador. Checar e-mails, recados no Orkut, conversar com aquele amigo que ficou longe. Sandra Scaff, 48, diz que toda manhã passa uma hora na lan house respondendo e-mail e trocando recados no Orkut. Sandra trabalha com música em Curitiba e, mesmo de férias, acaba trabalhando. ‘‘É complicado se desligar totalmente. É quase um vício’’, reconhece.
Ela diz que a principal preocupação está no fato de deixar passar alguma mensagem importante. Além disso, Sandra tem três filhos que vivem nos Estados Unidos e usa a internet para se comunicar sempre com eles. ‘‘Não sou dependente do computador, mas da comunicação. Mesmo assim, não instalei um computador na casa da praia e não entro mais no MSN’’, diz, e continua: ‘‘Senão, não ia fazer nada’’.

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