Faroeste, pornô e cabelos brancos
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segunda-feira, 11 de agosto de 2008
Rafael Urban<br>Equipe da Folha 
As 23 pessoas que estão na platéia têm cabelos brancos. A sessão das 17h30 no auditório da Biblioteca Pública do Paraná começou com o 15º e último episódio da cinessérie Sombra do Escorpião, de 1936. Antes do 10º episódio de Buffalo Bill, o Invencível, de 1954, os presentes ainda assistiram ao longa-metragem Pistoleiro Sem Alma, de 1966. Passo tudo em VHS por uma questão de facilidade, explica Jorge de Souza, 79 anos. No dia 3 de setembro, ele comemora 25 anos de atividade ininterrupta do Cineclube Anníbal Requião, sempre às sextas-feiras. É uma homenagem ao primeiro cineasta do Estado, que, além de pioneiro, é tio-avô do atual governador.
Para as sessões, Souza seleciona os títulos entre os sete mil de sua coleção. O começo do cineclube, que chegou a ter 150 sócios, foi uma reunião entre aficionados por cinema e amigos de longa data em 1983. A relação de Souza com a Sétima Arte inicia-se antes. Em 1944, aos 14 anos, colecionava como figurinhas os pedaços de película que seu irmão, então projecionista do Cine Morgenau, lhe trazia. Passou a ser o responsável pela projeção dos filmes no cinema pouco depois. No final da década de 1950, sua casa virou uma espécie de clube, em que projetava em 16mm para os amigos. Em 1960, tornou-se proprietário do Cine Morgenau.
Depois de tempos áureos, o cinema de rua chegou ao seu fim. Foi uma bronca com o saudoso Cine Plaza que motivou Souza a aderir ao pornô. O sucesso arrebatador de O Retorno do Jedi, capítulo conclusivo de Guerra nas Estrelas, chegou a Curitiba no final de 1983. A sorte do Morgenau seria maior não tivesse de dividir a cópia com o cinema da Praça Osório. Em uma tarde, os rolos de película demoraram a chegar no Plaza, o que atrasou a sessão e deixou o administrador enfurecido. Souza resolveu não fazer muito caso. Ligou para o distribuidor e disse que não queria mais o filme de George Lucas. Fazia tempo que ele estava querendo que eu exibisse o Garganta Profunda. Falei que, finalmente, topava. Ainda que o hit pornô da década, famoso pela cena em que compara um orgasmo masculino ao lançamento de um foguete, já tivesse sido exibido por dez semanas na cidade, o sucesso no Morgenau foi imediato e com a sala lotada.
Foi na Quarta-feira Santa de 1984 que, depois de 12 semanas em cartaz, Garganta Profunda deixou o cinema. Em seu lugar, entrou Paixão de Cristo, de 1909, exibido anualmente naquele período, em uma tradição que Souza não ousou romper. E a sala continuou lotada, comenta, em meio a um riso contido, o dono do cinema, que assumiu o caráter pornô e funciona até hoje. São sessões corridas das 10 às 21 horas, ao custo de R$ 6. Tem gente que entra de manhã e sai somente à noite. Os tempos de sala cheia, porém, ficaram no passado. Souza atribui a mudança à facilidade de acesso ao conteúdo pornográfico; acredita, também, que o cinema, do modo como conhecemos, chegou ao seu fim.
O sucesso do Cine Morgenau foi até 1996. Atualmente, na sala de 94 lugares, circulam diariamente de 40 a 50 pessoas paga-se um ingresso para ficar o tempo que quiser.
No começo, era uma novidade. Passávamos os filmes com mandado de segurança. Souza recorda que, por vezes, recebia ligações dos distribuidores avisando que o filme tinha sido proibido e que, se não saísse de cartaz, a Polícia Federal viria atrás. Aí, quando finalmente o filme era liberado, era sucesso na certa. As pessoas achavam que tinha mais sacanagem. E era justamente isso que buscava o público. Quando envolvia uma história mais complexa, o desinteresse era grande.
Souza, apesar de ser dono de um cinema pornô, nunca foi fanático pelo cinema erótico. Nem olho para isso. Gosto de bang-bang, faroeste e seriado. Filmes que não passa por acreditar que não têm aceitação. Já foi muito criticado por sua escolha, mas tem consciência tranqüila. Nunca coloquei o revólver no pescoço de ninguém para entrar no meu cinema. Por motivos econômicos, fui obrigado a aderir à pornografia.


