Faria tudo de novo
Quando o pneumologista Waldir Canezin, 77 anos, chegou a Londrina em 1936, a cidade tinha apenas dois anos de fundação. Desembarcou com a família, oriundo de Monte Aprazível (SP), com o patriarca incumbido de tocar uma serraria. Na lembrança, ele tem vivas as cenas das casas todas de madeira com chão batido e chaminés ''indecisas''. ''A fumaça nunca sabia se saía pela parte de cima ou por dentro da casa'', explica.
O ensino primário foi no Grupo Escolar de Londrina, que funcionou em uma salinha da Companhia de Terras Norte do Paraná e depois no Colégio Hugo Simas. O Ginásio foi no Colégio Londrinense e o científico na cidade de Rio Claro, em São Paulo.
A vocação para ser médico surgiu quando Waldir ainda era um garotinho, aos quatro anos de idade, de forma repentina e inexplicável. Pouco mais tarde ele arrancou risos da turma toda, inclusive da professora, quando falou na sala de aula que queria estudar Medicina. ''Imagine, Londrina era um sertão e eu o filho do dono da serraria e de uma mulher que fazia flores artesanais vendidas por mim mesmo para ajudar no sustento da casa. Não era lógico que um médico saísse daqui'', comenta Canezin.
Mas a decisão estava tomada. Juntou outros dois colegas e formou um grupo de estudos. Confeccionaram as próprias apostilas e partiram para Curitiba para o vestibular da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Passou e foi da mesma turma de Lafayette Marques Guimarães.
Começou a faculdade e no último ano recebeu a notícia: o pai estava doente, sem condições de saúde para continuar trabalhando. Quis largar para voltar imediatamente a Londrina e sustentar a casa. ''Mas meu pai não deixou. Fiz o último ano e quando terminei já fui logo tratando de arrumar uma fonte de renda''.
O primeiro emprego como médico foi em Porecatu, no hospital da cidade, mas durou pouco. Canezin pegou hepatite. Precisou de um tempo de repouso e quando se recuperou estava decidido a não trabalhar mais em hospital. Trocou Porecatu por Cafeara, onde atendia de casa em casa, um verdadeiro médico da família, de maleta na mão. Às 22h, quando o gerador era desligado e todas as luzes da cidade se apagavam, ele acendia o lampião e estudava. Era recém-formado e tinha que tratar a todos os tipos de doenças e sem recursos para diagnóstico. Nem aparelho de Raio-X havia na cidadezinha. ''O diagnóstico tinha que ser preciso. Eu não podia errar'', destaca.
Em 1962, deixou Cafeara e passou um tempo no Estado de São Paulo, retornando ao Paraná no ano seguinte para se instalar do outro lado do Estado, na região Sul, trabalhando em hospitais das cidades de Coronel Vivida e imediações. ''Foi lá que vi neve pela primeira vez''.
Só em 1970 conseguiu ir ao Rio de Janeiro para a especialização em pneumologia e tisiologia. ''Daí finalmente consegui trabalhar em Londrina, sendo convidado pelo prefeito Dalton Paranaguá para atender no ambulatório de tuberculosos (onde atualmente está o Hospital Universitário)'', explica o médico.
Foi professor do curso de Medicina da Universidade Estadual de Londrina, mas quando teve que escolher entre o docência ou o ambulatório de atendimento aos tuberculosos ficou com a segunda opção. ''Eu não podia abandonar meus doentes''. De fato, até hoje ele continua firme no ambultório de atendimento aos tuberculosos e em seu próprio consultório.
''Meu gosto é esse: ouvir um pulmão, ver uma radiografia. Neste terra, comi um pó fino e com cor de chocolate, mas o sabor era de terra. Operei à luz de lamparina, quase sempre com auxiliares improvisados e sendo o próprio anestesista. Faria tudo de novo'', diz, orgulhoso, o pai de Rosa Adriana e Waldir e marido de Maria Neli. (W.S.)





