Se a vida no Japão não estava fácil, retornar ao Brasil também reserva desafios. Claro que estar de volta à terra natal ao lado dos familiares e amigos ameniza as dificuldades. Mas, principalmente, para as crianças, a tarefa de estar um território desconhecido requer bem mais do que disposição.
Fazia 17 anos que a brasileira Arlete vivia no Japão. Foi em 1992, acompanhando o marido descendente de japoneses. Ela conta que as diferenças culturais da chegada se desfizeram em pouco tempo e ela logo se adaptou ao estilo japonês de viver: muito trabalho, pouco descanso e uma convivência mais familiar do que comunitária.
Os três filhos - Viviane, Sérgio e Cristiane - nasceram no Japão e, por decisão do agora ex-marido, não aprenderam o português e frequentaram a escola japonesa. Arlete conta que a diferença da escola pública do Japão para a particular, onde o português faz parte do currículo, é gritante: na japonesa, ela gastava cerca de R$ 100 com cada filho, enquanto a brasileira não saía por menos de R$ 1 mil para cada um. ''Trabalhava em casa e não tinha condições de pagar para todos eles'', aponta.
Quando pousaram em solo brasileiro em abril, as crianças não sabiam uma palavra na língua materna. Até a alimentação era uma preocupação para Arlete. Viviane, a filha mais velha, ainda admite gostar mais da outra casa, mas a mãe conta que está se adaptando com certa facilidade. A mais nova, Cristiane, também fez amigos rapidamente. O problema maior está sendo com o garoto. ''Ele é mais tímido e mais quieto e acho que, por isso, tem mais dificuldade'', afirma.
Para os três, a escola está sendo um desafio à parte. Além de regredirem em pelo menos uma série, eles não entendem quase nada o que o professor fala nem conseguem acompanhar os exercícios. ''Não dá para saber se eles compreenderam ou não o conteúdo'', admite a coordenadora pedagógica da escola, Deni Dias.
Já os filhos de Evelize Bueno Aida, 44, não tiveram problemas com o retorno A Assaí. Sarah Yuka Bueno Aida, 10, e Fagner Aida, 20, viveram no Japão os últimos quatro anos e meio, mas a família conversava em português e a mais nova estudou em uma escola brasileira, após uma tentativa frustrada em uma escola japonesa. ''Só com a mensalidade eu gastava metade do que eu ganhava trabalhando em uma fábrica de automóveis'', calcula a mãe. O marido de Evelize, Rubens Matsuo Aida, 46, não viajou de volta e continua tentando a sorte no Oriente.
De volta ao Brasil, a família relata que as condições de vida no Japão ficaram muito difíceis com o aprofundamento da crise econômica. Evelize revela que muitas famílias perderam carro, casa e as poucas economias e não tiveram outra opção a não ser viverem em barracas em campings improvisados em praias e parques públicos. ''Quem ainda quiser ir tem que pensar muito bem, principalmente quem tem criança, porque a tendência é sofrer muito'', avisa. (L.A.)

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