Governador Celso Ramos (SC) - Está longe a época em que surfistas eram malvistos. Pais não queriam que as filhas namorassem aqueles meninos de cabelo comprido, meio rebeldes, caladões, eternamente tostados de sol e taxados todos como ''maconheiros'' ou ''vagabundos'' - quando não as duas coisas.
As crianças e adolescentes que eram proibidos de andar com a tribo naquela época cresceram. São os pais que hoje levam os filhos para ter aulas de surfe na praia. Na areia, ficam contemplando, orgulhosos, os pequenos arriscarem as primeiras manobras sobre a prancha. No fundo sonham em ir surfar também, para recuperar o tempo perdido, mesmo depois dos 30.
A tribo do surfe hoje é vista de forma bem diferente. É gente saudável e bonita, que preza boa alimentação, respira ar puro e defende a natureza. Estão longe de drogas e bebidas.
Os irmãos Rodrigo Gutierrez Martins do Valle, 26 anos, e Ricardo, 27, o Rico, comanda uma turma de professores de surfe na praia de Palmas, em Governador Celso Ramos, litoral de Santa Catarina.
Não há quem não conheça, por ali, a dupla da Escola de Surf do Pirata. Já faz mais de dez anos que os gaúchos dão aula de surfe. Gente boa até o último fio de cabelo, acabam virando amigos dos aluninhos, dos pais deles e de quem frequenta a areia naquele pedaço do balneário.
A escola administrada pelos dois irmãos cresce ano a ano. É que na hora de cuidar do negócio, nada de agir como ''surfista lesado'' ou irresponsável. Rodrigo e Ricardo são bem centrados e levam o assunto a sério. Afinal, é o ganha-pão dos dois, e Rico já é pai de família.

Investimento
Rodrigo conta que o dinheiro recebido a cada temporada tem destino certo. Uma parte paga as despesas do período e o que sobra é reinvestido. Há dois anos, por exemplo, compraram uma bóia redonda gigante para competir com a Banana Boat que promove passeios no mar da mesma praia. O Disco Boat faz vários passeios por dia.
Fora as aulas de surfe, que podem ser em turma ou individuais, eles ainda alugam caiaques, cadeiras e guarda-sóis. Todos os dias tem turista em pencas movimentando a barraca. Os dois irmãos, os demais professores, a namorada de Rodrigo e amigos contratados atendem o pessoal com o bom astral típico da galera do surfe. Quem fica freguês, volta sempre.
A Escola de Surf do Pirata tem como patrimônio as pranchas, a barraca, os caiaques, cadeiras e guarda-sóis, uma caminhonete e um barco. A infraestrutura está ali pertinho, a três quadras do mar, no empreendimento comandado pelo pai e pela mãe deles, a pousada Cabanas do Pirata. A história da família, aliás, é um capítulo a parte.
O pai, Ricardo Martins do Valle, 56, é surfista desde sempre. Os filhos cresceram acampando com os pais ali mesmo, em Governador Celso Ramos. Todos os verões saíam de Porto Alegre (RS). Passavam dois, três meses no local, que na época não tinha estrutura nenhuma, apenas uma vila de pescadores.
''O pai vem pra cá faz 35 anos. Não tinha luz, água, rua, nada. Desde pequenos eu e o Rico surfamos, mergulhamos e pescamos junto com a turma de surfistas amigos dele. Reunia aqui gente de Porto Alegre, Floripa e Curitiba'', conta Rodrigo.

Pousada
Com o tempo, o ''velho'' comprou um terreno e construiu uma casa simples. Nessa área foram, depois, construídos os chalés da pousada. ''O pai e a mãe têm clientes que vem há anos, em toda temporada'', diz Rodrigo.
Detalhe: a mãe, Ana, não surfa e nem gosta de entrar no mar, não sabe nadar. Mas é presença importante e constante, sempre ajudando o marido e os filhos nos empreendimentos.

Preocupação
A praia de Palmas já não tem mais a aura de local selvagem e deserto de tempos atrás. A orla mantém a areia fina, as águas limpas, o mar bom para o surfe e os morros verdes emoldurando a paisagem. Mas a família assiste o crescimento do turismo com um misto de alegria e preocupação.
Por um lado, é bom para os negócios. Por outro lado, não gostam nem um pouco de ver as ameaças da poluição e dos prédios altos. ''Estamos lutando, nós, surfistas, que temos uma associação, junto com a associação de moradores local, contra a especulação imobiliária. As construtoras querem conseguir licença para erguer prédios altos ao lado da praia, olha que absurdo'', aponta Rodrigo.

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