Falta de tempo é compensada com atenção excessiva
Ninguém pode ser chamado de ''burro'' porque não sabe descascar uma fruta ou encher uma fôrma de gelo. No mesmo dia-a-dia em que enfrentam dificuldades para realizar tarefas simples, jovens e adolescentes provam a capacidade para o aprendizado do que os interessa, mostrando facilidade impressionante para dominar conceitos e técnicas que, expostas a adultos, são igualmente indecifráveis. Cabe aos pais, neste caso, incentivar os filhos a desenvolver habilidades motoras, muitas vezes, à base de aproximação, atenção e carinho.
A avaliação da doutora em psicologia escolar e do desenvolvimento humano pela Universidade de São Paulo (USP), Maria Rita Zoega, é de que tal fenômeno explica-se pela carga cada vez maior de trabalho a que os pais estão sujeitos. Com isso, eles deixam de estar presentes em atividades do cotidiano das famílias, como um almoço ou uma brincadeira de final de tarde, e passam a ser substituídos por empregados, que teoricamente estão ali para cumprir ordens leia-se atender aos desejos dos patrões-mirins. ''Mais do que um problema biológico ou motor, o fenômeno é gerado por um contexto social. Hoje, não há mais tempo para o convívio familiar ou para brincadeiras de rua, atividades que são importantíssimas para o desenvolvimento de atividades motoras'', explica Maria Rita.
A influência do contexto, no entanto, não incidiria somente sobre os pais. A psicóloga também considera que as exigências acadêmicas sobre os jovens são cada dia maiores, o que também os afastaria das atividades cotidianas. ''Os estudantes ficam a maior parte do tempo nas escolas e quando voltam para casa, têm que estudar também'', teoriza. ''Isso restringe as oportunidades para relacionamento, que às vezes são compensadas na frente do computador'', completa.
Maria Rita recomenda também que as habilidades cognitivas não sejam tão valorizadas pelas famílias. ''É importante saber elogiar um filho que domina programação de computador. Mas esse elogio tem que ser dosado a ponto de a criança entender que não é só aquilo que ela precisa fazer para ser reconhecida'', explica.
O risco, segundo a psicóloga, é de que todo o desenvolvimento do potencial intelectual da criança fique comprometido. ''É na convivência e nas experiências diárias que os jovens adquirem, por exemplo, conhecimento sobre conceitos de Física, como velocidade, direção e mesmo memória. São coisas aprendidas com muito mais facilidade em situações naturais, não na frente de um computador'', argumenta.
A psicóloga, porém, defende o uso de ferramentas tecnológicas no ensino dos jovens, desde que os recursos sejam utilizados com racionalidade. Mudança de comportamento por parte dos pais também é essencial para que o jovem cresça num contexto em que a própria personalidade se construa com patamares mínimos de convivência social.
''Não há idade limite para a formação do caráter de uma pessoa; por isso, o cuidado deve ser tomado o tempo todo. Se os pais atendem a todo o tempo os desejos dos filhos, estes jovens correm o risco de crescer achando que vão ser atendidos a toda hora. A realidade é bem diferente disso. Crianças que brincam e se relacionam mais têm, notadamente, mais facilidade para resolver problemas acadêmicos, sociais, emocionais e mesmo cognitivos'', conclui.(A.M.)





