Falta de estudo torna o futuro incerto
A pouca ou nenhuma escolaridade dos adultos do Morro do Carrapato é talvez o que mais contribui para a falta de perspectiva em relação ao futuro. Em seis das 15 famílias entrevistadas há cidadãos com mais de 18 anos que nunca aprenderam a ler e escrever. Outra meia dúzia tem o primário - quatro não passaram da 2 série - e igual número só chegou à 5 série do Ensino Fundamental. Cinco frequentaram o Ensino Médio, mas apenas dois se formaram.
''Eu queria muito estudar quando tinha meus oito anos, mas era a mais velha dos irmãos e meu pai não se interessou em me pôr na escola. Lá no Pernambuco, o negócio era arrancar mandioca, fazer farinha e pronto. Hoje não tenho mais cabeça para voltar à escola'', resigna-se a diarista e catadora de papel Maria Aparecida Inácia da Silva, 44. O desânimo não é exclusivo dos mais velhos. Muitos jovens que já são pais, como o catador Adriano dos Santos Cunha, 28, também não se permitem pensar num retorno às salas de aula. ''Ah, não. Dá vergonha'', diz.
Dentre os entrevistados, apenas uma outra Maria Aparecida, 59, também catadora de papel, que nunca entrou numa sala de aula, decidiu se instruir através do ''Brasil Alfabetizado'', voltado para educação de adultos. Ela e o marido, o pedreiro Expedido Ferreira de Souza, 51 anos, vivem em dois pequenos cômodos no terreno comprado a prestação. Ambos não recebem benefícios oficiais. Expedito, que cursou até a 4 série, está há 12 anos sem conseguir trabalho registrado. ''De vez em quando alguém ajuda mas acredito mesmo é nos meus braços. Nesse ponto, sou orgulhoso.''
Os reflexos de um grau de instrução mais elevado são facilmente perceptíveis, mesmo numa invasão onde a falta de infra-estrutura iguala a todos. O único entrevistado que possui veículo era André Correia Rosa, 24 anos, 2º grau completo. Entregador autônomo e mecânico com carteira assinada, André trabalha o dia todo, mas não ganha o suficiente para pagar aluguel. Ainda está pagando as prestações da motocicleta e mora de favor num barraco, com a mulher de 17 anos e um bebê. Apesar dos problemas, o casal tem otimismo - outra coisa rara no Morro do Carrapato. ''A idéia é sempre melhorar'', diz o motoboy, enquanto a esposa garante que quer voltar a estudar. ''Eu gosto, nunca repeti um ano. Só parei porque engravidei.''
Outros exemplos mostram que a mesma miséria que fez muitos adultos abandonarem os estudos também impulsiona os mais novos. ''É bom estudar para ter uma vida melhor. Quero melhorar a nossa casa'', diz Adriano, 15, filho de Maria Aparecida, a pernambucana que nunca foi alfabetizada. O menino ajuda a mãe a catar papel e quase conseguiu concretizar um sonho: viajar para o parque de diversões de Beto Carreiro. Acabou tendo que usar o dinheiro que guardava para ajudar nas despesas domésticas.
Recém-empregado como aprendiz numa empresa, Adriano demonstra que não é de deixar os sonhos para trás. A mãe confirma: ''Ele vai e volta a pé da escola lá na Vila Casoni todo dia. Pode estar chovendo que não perde uma aula. O que eu não pude dar, tenho certeza que ele estudando e trabalhando vai conseguir.'' (L.A. e V.N.)





