Extremos da cidade
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sexta-feira, 14 de dezembro de 2007
Luiza Xavier<br> Equipe da Folha 
Uma nem está no mapa e a placa indicativa fica escondida entre as folhas de uma árvore. A outra é uma referência e atravessa vários bairros. As duas fazem parte do mesmo espaço urbano e, claro, guardam vantagens e desvantagens, indicadas por seus moradores e comerciantes.
No bairro Santa Cândida, região Norte da capital, está localizado um trecho de apenas 25 metros, que reúne seis casas. Parece até uma vila, mas é a rua Professor Hamilton César Cognolli, considerada a menor da cidade. No outro extremo, está a Rua Marechal Floriano Peixoto, que no Centro faz esquina com outra Marechal, a Deodoro, e se estende ao longo de mais de 12 km até o Boqueirão, na região Sul.
''Antigamente, isso aqui era tudo chácara. O correio nem chegava. O carteiro deixava as cartas com o pessoal de uma rua próxima. Quando me mudei para cá, tive de levar tudo numa carroça, porque o caminhão não passava'', conta o aposentado Alceu Geiliet, 73 anos, que há quatro décadas veio de Cerro Azul para morar com a família na pequenina rua do Santa Cândida. Sobre os motivos que o levaram a escolher aquele ponto praticamente desconhecido, ''Seu'' Alceu é direto: ''aqui o terreno era mais barato.''
Viúvo, ele agora usufrui com o filho, a nora e duas netas a casa confortável que conseguiu construir aos longo desses anos. ''Aqui é um lugar calmo e muito gostoso. Além disso é seguro e os vizinhos são bons'', ressalta Alceu. A tranquilidade é também apontada pela moradora Claudete Ventura, 33 anos, como o grande diferencial da rua Professor Hamilton Cognolli, que além de curta, é sem saída. Ou seja, trânsito de veículos ali não existe, só mesmo as manobras de quem entra e sai das garagens das poucas casas.
''Deixo minha filha brincar aqui fora sem medo. A vizinhança toda se conhece, e um ajuda o outro quando há necessidade'', avalia a dona-de-casa, que vive no local há sete anos com a família. A filha caçula, Elen, de três anos, é a que mais se diverte, correndo de um lado para o outro acompanhada de perto pelo melhor amigo, o cãozinho Tigrão.
Mas, a satisfação da família Ventura não é total. ''O maior problema aqui é que não podemos abrir nenhum negócio. Eu tinha vontade de instalar um salão de beleza, mas quem é que passa por aqui?'', indaga Claudete. A filha mais velha, Agnes, de 15 anos, já faz curso para ser cabeleireira e está ciente de que terá de procurar freguesia em outro ponto da cidade. ''É tudo muito parado aqui'', lamenta.
Já ao longo dos 12.800 metros da Marechal Floriano, movimento é o que não falta. A rua compõe um importante eixo de circulação da capital, passando por bairros como Centro, Hauer, Parolim e Boqueirão. Ainda neste mês, deverão ser iniciadas as obras que, de acordo com a prefeitura, será a maior transformação sofrida pelo local desde a implantação das canaletas de ônibus, há quase 30 anos.
''A grande variedade de comércio e serviços por aqui é a principal vantagem mesmo. Quando eu morava com os meus pais aqui no Boqueirão, a gente nem precisava sair do bairro para fazer compras e ir ao banco'', lembra a administradora de empresas Dirlei Mocelin, 39 anos, que agora mora com a filha e o marido no Água Verde, mas visita com frequência a rua onde cresceu. ''Meus pais ainda moram em casa, com quintal e tudo. Essa rua é muito boa. O problema daqui, para mim, surgiu quando comecei a faculdade, no Centro. Era duro atravessar toda a Marechal de ônibuis'', recorda.
A grande extensão da Marechal Floriano Peixoto acabou criando uma característica interessante no local: o grande número de concessionárias de veículos, com seus pátios amplos, instaladas, lado a lado, ao longo da rua. Só a Associação Comercial do Paraná (ACP), que considera apenas as empresas associadas à entidade, contabiliza oito empresas. Não por acaso, aquele trecho recebeu o sugestivo nome de ''Autolândia'', como explica Pedro Colares, diretor de uma das principais lojas da região. ''Esse é o principal eixo de negociação de veículos de Curitiba. Todas as marcas estão representadas aqui'', afirma o executivo.
Para quem considera estranha tal concentração de concorrentes, Colares esclarece a velha lógica do mercado, a mesma que impede a dona-de-casa lá do Santa Cândida de realizar o sonho de ter o próprio negócio: quanto maior a oferta, maior a procura. ''Quem quer comprar carro, faz a pesquisa aqui mesmo. Entra em várias lojas, negocia preços, sem ter de circular por vários bairros. É vantajoso para o consumidor e para quem vende'', garante.


