Depois de uma determinada idade, não há pessoa que não tenha em sua mente alguma imagem armazenada. Para ficar só em dois tipos de imagem: as de alegria e as de tristeza. Carrego comigo mais imagens de tristeza que de alegria.

Levo comigo, há muitos anos, uma imagem que reacendeu em mim nos últimos dias. Quando estudante de medicina, na década de 1970, estava, creio que num domingo, de plantão no pronto-socorro do Hospital Cajuru, em Curitiba. Era fim da tarde, quando dão entrada no pronto-socorro várias crianças e alguns adultos, todos vítimas do mesmo acidente de trânsito.

Durante o atendimento, tomo conhecimento de como foi o acidente. As crianças, todas parentes ou de famílias conhecidas, estavam na praia, e resolveram voltar para Curitiba juntas numa kombi. Voltaram juntas porque estavam alegres e queriam prolongar um pouco mais a companhia umas das outras.

Já próximo de Curitiba, na estrada (BR-277), um caminhão atravessa do outro lado da pista e pega de frente a kombi e faz algumas vítimas. Pelo tempo, não lembro mais se alguma foi fatal, mas creio que sim.

Não me sai da memória a imagem de dor e sofrimento dessas crianças. Eram crianças com lesões pelo corpo. Uma mistura de sangue, lágrimas e gemidos. Não havia sequer maca para todas elas. Por serem crianças pequenas, colocávamos duas numa só maca.

Na correria do atendimento, um bêbado, numa das macas, com algumas lesões, porém mais leves, reclamava atendimento. Naquele momento, a prioridade era atender os mais graves. No caso, coincidia: os casos mais graves eram também os mais inocentes.

Essa forte imagem que insiste em não se apagar reacendeu nos últimos dias com o criminoso acidente que ceifou a vida dos jovens Gilmar Yared, 26, e Carlos Almeida, 20. Reacendeu porque os acidentes têm algo em comum: bêbados ao volante.

O bêbado que no pronto-socorro daquela tarde da década de 1970 reclamava atenção era justamente o motorista do caminhão que tinha vitimado as crianças que atendíamos. E o bêbado que agora dirigia seu Passat alemão era Luiz Fernando Ribas Carli Filho, deputado estadual.

Creio que esta foi uma das razões para o acidente ganhar notoriedade. Que sirva de exemplo para punição de agora e de futuros casos similares.

Quando o carro bate numa velocidade acima da permitida naquela rua ou estrada, o motorista é ou não é um criminoso? Se há uma regra (lei) que estabelece a velocidade máxima, aquele que anda, vamos considerar, 15% (para ser moderado) acima de tal velocidade, pode ser considerado um criminoso ou não?

Se estiver bêbado, não importa a velocidade. Agora, bêbado e em alta velocidade, duplamente culpado. Bêbado, em alta velocidade e com a carteira suspensa: triplamente culpado.

Para diminuir ou evitar que novas imagens de violência no trânsito de Curitiba voltem a ocorrer, o órgão de trânsito da prefeitura precisa atuar com firmeza na prevenção (educação) e punição (multas). Também os tribunais, que quase nunca condenam, precisam condenar. Carteiras têm que serem cassadas. E, quando o motorista não comparece ou não é localizado para entregar sua carteira, ele precisa ser caçado.

Não sei se eu seria um bom socorrista, mas a imagem fortemente reacendida na minha memória, junto com outras daquele período, fez com que nunca mais quisesse trabalhar em um pronto-socorro. Não consigo ver a dor sem ser tocado.

Dr. Rosinha, deputado federal (PT-PR), é vice-presidente brasileiro do Parlamento do Mercosul.

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