EXPRESSO
Um homem baixinho, quase careca, uma caricatura. É decepcionante se você pensar bem. Mas para quem já viu os filmes, leu os livros, não é uma surpresa. Mr Allen, Woody Allen, o ator, diretor, escritor é exatamente aquilo que diz ser.
Mas olha só, mal passei cinco minutos perto do homem e já o estou analisando. Na realidade, foram pouco menos de 90 minutos, a maior parte com Mr. Allen tocando clarinete de olhos fechados, como uma diva, num bar pequeno e escuro no Hotel Carlyle, Upper East Side, Nova York. Mas sejamos justos, o show não é ruim e, em alguns momentos, Woody até sorri.
Não sou do tipo que é fã de alguém. Daqueles que pedem autógrafo, tiram foto. Tantas coisas mais interessantes para fazer na Big Apple num sábado à noite. Mas eis que o marido é fã - do tipo que pede autógrafo e tira foto - de Woody Allen. A viagem era o meu presente, o show de jazz no Carlyle era o dele.
Pois vamos aos fatos, chegamos no bar cedo seguindo as instruções do recepcionista do hotel que conhecemos no dia anterior quando fomos vistoriar o local. Apesar da nossa aparência óbvia de turista, não fomos barrados na entrada. O staff, como ouvi um garçom comentar, está acostumado com os fãs de Woody.
No bar - vazio - fomos informados de que havia, sim, reservas disponíveis para o show da noite. "Vocês estão cientes dos valores, não?", perguntou educadamente o host. Sim, estávamos cientes, embora não muito convencidos: US$ 75 mais US$ 25 de consumação mínima por pessoa, um total de mais de US$ 200 depois de cobrados os impostos.
Até o horário do show foram mais de duas horas regadas a Ice Tea e Coca-cola (nem eu nem o marido bebemos) e uma conversa animada com francesa Francine e a filha, um casal de americanos e duas brasileiras. Todos fãs de Mr. Allen. Mas a diversão da noite mesmo foram duas irmãs gêmeas.
A dupla apareceu no bar pouco antes da chegada de Woody. Ambas num vestidinho vermelho sangue justérrimo, curtérrimo com decote generoso na frente e atrás (o suficiente para revelar o sutiã vermelho com alça de oncinha), sapatos de salto alto (adivinha só de que cor?) e uma maquiagem, digamos, pouco sutil. "Somos fãs", explicou. Ninguém acreditou.
As irmãs pediram aos garçons "uma rosa para entregar a Woody" e insistiram para conseguir uma mesa na frente do palco, mas desistiram desse último pedido quando foram informadas de que teriam que pagar US$ 100 por pessoa para sentar tão bem localizadas.
Às 20h30 a banda já estava no palco, pronta. Só faltava Mr. Allen, o tocador de clarinete - como se sabe as divas sempre chegam por último. Woody apareceu às 20h45, horário do show, pela porta dos fundos do bar, exatamente do lado de onde eu e o marido estávamos, seguido pelos dois filhos adotivos.
O show, bem, foi divertido, com solos muito bons e Woody tocando em stacatto (de olhos fechados) na maior parte do tempo. No fim, Mr. Allen deu uma palhinha cantando Yada Yada, coisa que ele não faz com frequência e encerrou o show.
Na saída, Woody foi surpreendido pelas gêmeas, que no meio de um grito de "We love you" arrebataram o homem num abraço de urso. "Nós somos da Transilvânia, a Terra do Drácula", disseram. No lobby do hotel, Mr. Allen foi cercado pelos fãs (uma meia dúzia deles), autografou uma pilha de fotos de Nova York e uma cópia de Manhattan em português sem reclamar. E tirou fotos.
Tudo isso enquanto as gêmeas - ainda elas - continuavam a falar: "Nós temos que trabalhar com o senhor!" Hum, enfim tudo fica claro: elas são atrizes. Em seguida começam a cantar "And all that jazz". No meio da performance, Woody desapareceu, é claro.
No fim, foi uma noite divertidíssima. Voltamos para o hotel rindo muito das gêmeas e da cara de apavorado de Woody ao lado delas. Talvez em um ano ou mais estaremos vendo um filme de Mr. Allen com as gêmeas da Transilvânia.
Roseane Correia de Freitas, é jornalista da FOLHA.





