O balé das sombrinhas

Dia desses enquanto caminhava pelo centro da cidade segurando minha sombrinha pensava:
- Como será que as sombrinhas sobrevivem ao descaso?
Esquecidas, ali, num canto do nada, talvez sonhem com dias gloriosos! Mas para que isso aconteça, precisam das águas mansas, simpáticas e impertinentes dos céus.
Pobres sombrinhas! Foi-se o tempo em que eram mantidas sempre à mão, como um acessório moderno, luxuoso. Luxuoso sim, pois suas cores eram sempre as mais alegres e fascinantes da moda!
Observando melhor, fixei o olhar no balé que faziam aquelas alegres sombrinhas bem à minha frente. Traziam passageiros dos mais variados em expressões e pensamentos. Fiquei curiosa. Olhei para cima e vi a armação o esqueleto da minha singela sombrinha então indaguei:
- Seriam todas uma espécie de confidentes?
Creio que sim já que estão acima das nossas cabeças e ao desprender dos pensamentos são o primeiro filtro, as primeiras de tudo saber!
Um passo mais adiante e vi... Juro que vi alguns guarda-chuvas imponentes, revestidos da cor negra até os dentes da alma!
Pobres guarda-chuvas - pensei - e no minuto seguinte, eis que atravessou bem à minha frente algo novo, completa e visceralmente diferente!
Perguntei ao silêncio:
- Enlouqueci? Isso é possível?
E, o silêncio, como de costume, nada disse nada fez!
Ah, esse desdenhoso silêncio, melhor dizendo, debochado mesmo!
E o magistral guarda-chuva se mantinha serpenteando...
Mistério. Porque seria ele tão especial?
Aproximei-me como um tigre da presa, não pretendia dispersá-lo. Acelerei o passo o quanto pude e, finalmente, consegui ladeá-lo. Naquele momento olhei novamente para o esqueleto da minha sobrinha e murmurei:
-Deus me ajude!
Ultrapassei aquele que segurava firmemente o divergente objeto de minha curiosidade. Em seguida, desacelerando para não perder meu perseguido, olhei para o lado e disse ao desconhecido:
- Gostei do seu guarda-chuva!
O mesmo me encarou com ar intrigado, assustado e um tanto curioso em seguida retrucou:
- Por quê?
Vi-me em cólicas! Teria eu que compartilhar minha observação com aquele desatencioso proprietário? Não havia tempo para retardar a resposta então respondi de modo meio amarelado:
- Ah... Por que ele tem as cores do seu belo xadrez voltadas pra dentro e não pra fora como os demais!
O embasbacado homem voltou um olhar digno de admiração e desconfiança ao guarda-chuva e em seguida disse:
- Curioso!
No minuto seguinte voltando-me um olhar mais amistoso, porém ainda desconfiado completou:
- Até mais!
E foi. Distanciou-se de mim na mesma velocidade que se aproximou, mal tive tempo de responder à sua despedida!
O guarda-chuva daquele estranho era o único no meio de uma multidão de sombrinhas e outros tantos completamente às avessas! Parei por segundos minha marcha e pensei:
- Diferente e estranho, isso sim! Foi como se visse as pessoas de modo contrário, com os órgãos todos à vista, como se a nossa aparência estivesse estampada pra dentro de nós!
O transeunte do centro da cidade e seu diferente guarda-chuva, com certeza jamais retornarei a vê-los, mas as sombrinhas saltitantes e faceiras em dias de chuva, com certeza, verei! Ainda bem!

Eliana Schuster, extraído do livro de Contos e Crônicas: "Descompasso".

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