"Meu pai morreu e eu vim aqui ver se interessa a vocês comprar os livros e discos que ele deixou." Foi mais ou menos isso que ouvi. Eu estava no fundo da loja de livros e discos usados, quando um homem no balcão, na frente da loja, pronuncia essa frase. Imediatamente, num reflexo automático, olhei para ver quem era, pois tenho, ou imagino ter, anticorpos contra quem não gosta de livros.
Há muitos anos, frequento e faço compras em sebos de discos e livros usados. Volta e meia encontro bibliotecas inteiras sendo vendidas. Houve uma ocasião em que, assim que entrei na loja, o vendedor anunciou: "Chegou uma biblioteca toda, e está cheia de coisa boa".
O que leva um filho ou filha a vender a biblioteca do pai ou da mãe? Como pode alguém ter filhos que não leem e, pior, que não gostam de livros, pois a primeira coisa que fazem é vender tudo assim que morrem? Tenho uma razoável biblioteca e penso: será que tem algum familiar esperando a minha morte só para passar o acervo nos cobres?
Diz o rapaz interessado em vender a biblioteca do pai que o acervo é rico, tanto de livros como de discos. Afirma também que os melhores ele vai guardar. Ora, alguém que vende uma biblioteca sabe o que é melhor ou pior? E, se é para guardar, meramente por guardar, é melhor vender para quem lê e tem carinho pelos livros.
A conversa avança, os telefones são trocados para marcar o dia da avaliação do acervo. Nessa conversa, ele afirma que já vendeu a biblioteca da avó. Não sei se ela se revirou no túmulo, mas eu, lá no fundo da loja, me incomodei. Não sei vender livros e nem discos.
Sempre comprei em sebo. Na época da ditadura militar, era nos sebos que comprávamos alguns livros proibidos. Lembro-me de alguns: "Zero", de Ignácio de Loyola, "Feliz Ano Novo", de Rubem Fonseca, "A vida de Lênin", de Louis Fischer, "Faz Escuro mas eu Canto (A canção do amor armado)", de Thiago de Mello.
Alguns desses livros vêm com dedicatória. No "Faz escuro mas eu canto", está cravado: "Este livro é dedicado a minha querida esposa D.P. Com muito amor e carinho, do seu querido C.F.P." E em seguida, a data: corria o ano de 1970.
Não sei se D.P. perdeu, ou não tinha, o carinho pelos livros ou pelo marido. Ou talvez por perder o amor e o carinho do marido, vendeu o livro para um sebo. Talvez ela nunca tenha tido carinho pelos livros, como é o caso, imagino, do cidadão que já vendeu a biblioteca da avó e, agora, procura vender a do pai.

Dr. Rosinha, médico pediatra, é deputado federal (PT-PR) e vice-presidente do Parlamento do Mercosul.

mockup