EXPRESSO
O assunto à baila no momento vem ferindo o orgulho dos paranistas (não dos simpatizantes do tricolor de tantas vilas, mas dos que propagam o Paraná, Estado). Trata-se da mudança de nome do até então simpático J. Malucelli para Corinthians Paranaense.
Há duas maneiras de ver o assunto. Vou pela primeira, e a que mais se nota por ora. Diria ser a atitude do clube-empresa de Joel Malucelli algo provinciano, oportunista e que presta um "desserviço" à identidade do Estado, já de tão difícil construção, dada a variedade de origens de seus habitantes, entre os quais se incluem os paulistas que adotaram o Paraná como terra-mãe. Fatia esta à qual pertenço.
Esta tão procurada identidade que se vê ainda menor agora, ao menos no âmbito esportivo, revelada a pesquisa que aponta o Corinthians Paulista como o clube de maior preferência em todo território paranaense. Maioria que se faz esmagadora no norte, de intensa imigração de povos bandeirantes para a região, durante quase todo o século passado.
Foram os paulistas em grossa maioria que ergueram cidades como Londrina e Maringá, gerando filhos que cresceram sob nítida influência e orientação dos costumes praticados pelo interior de São Paulo. Café, fazenda, sotaque com erres em ór, violas caipiras, canções caipiras. Identidade caipira.
Desde que existe Paraná, sempre houve e não há como negar, um Paraná do norte, com as características já citadas. E um Paraná ao sul, mais europeu, tropeiro, com sotaques em ê, secular. Isso pra não falar do Paraná do litoral, caiçara e português ainda hoje, em suas raízes mais profundas.
Mesmo assim, desde o final do século vinte, fenômenos globalizantes vêm aproximando e conferindo alguma identidade ao Estado, mesmo que serena. Desde a década de 1960, famílias e mais famílias vêm se deslocando da região norte rumo à capital, além de mais e mais paulistas, catarinenses e gaúchos, gente de toda sorte. Gente que já se identifica com o frio de Curitiba em paralelo com o jeitão brejeiro do interior. Basta conferir os discos de João Lopes (nortista) e da banda Blindagem (curitibanos) no início da década de 1980 e veremos que já se notava esta tendência. Rock rural de bichos do Paraná com orgulho, todos.
Enfim, deste ponto de vista, um descalabro. Nasce ainda um Corinthians Paranaense com a bandeira de São Paulo no escudo, idêntico ao do homônimo Paulista. Ridículo que dói.
Vamos ao outro ponto de vista. Por tudo que já foi dito, não se pode falar de Paraná e suas origens sem a influência do Estado logo acima. Até 1853, era parte da imensa província de São Paulo, quando Pedro II assinou o decreto que criava o Paraná.
Como não podemos negar a influência portuguesa em nossa cultura (brasileira), em que se pragueje e negue de tudo contra os patrícios, inclusive a própria inteligência, em piadas infames apesar de divertidas.
Voltando ao Paraná: se existem clubes como o Juventus (origem polonesa), o Concórdia (alemã), e o Trieste (italiano), por que tanto espanto em homenagear os paulistas? Nada mais justo que se preste uma singela homenagem ao clube mais popular do Estado que deu origem ao Paraná.
Aliás, o próprio Corinthians "original" tem este nome em homenagem a um time amador de nome Corinthian Football Club (hoje Corinthian-Casuals), um dos mais antigos clubes ingleses (1882).
Seria então a adoção do nome pelo Jotinha coisa pra inglês ver? Sem ingenuidade. Futebol já é um negócio faz tempo. Máquina de enriquecer ricos. Enriquece também alguns poucos pobres, que o praticam com destreza. Business, my friend. Nestes moldes, gera coisas ridículas como a bandeira de São Paulo no escudo de um clube paranaense. Gera, bem... gera dinheiro.
Eu que não compartilho completamente de nenhum dos pontos de vista, vou continuar sendo um paulista que adotou o Paraná pra viver, por força de família. Aqui cresci e aprendi. Trago comigo tanto o sotaque em ór quanto em ê. Gosto do Atlético e dos ipês. Do Relespública, do cheiro da terra roxa no norte em dia de chuva, do Leminski e do sanduba de pernil com verde da Rua XV.
Grande coisa. E daí?
Flávio Jacobsen é escritor e compositor. Publicitário e artista de rock, é guitarrista e cantor da banda Gruvox.





